005: MAFALDA
Quino | Eisner | minha semana | capitalismo | páginas viradas | MIL
Assisti o primeiro episódio de VOLTANDO A LER MAFALDA, a série-documentário que estreou na Disney+ há uns dias. Só assisti o primeiro. Por enquanto, não quero assistir o resto.
Aliás, não sei quantos episódios a série tem. Espero que sejam vinte, trinta, sessenta. Se você sabe, não me conte.
Sim, eu gostei. Gostei muito. Não por ser um fã muito devoto de Mafalda ou de Quino – queria ser, não sou –, mas porque é um documentário feito com atenção. Com reverência, é óbvio, mas com crítica.
Não é uma produção que só convida cartunista argentino pra responder “o que Mafalda é pra você?” Liniers e Maitena pegam os primeiros desenhos de Mafalda por Quino e fazem cara feia. Acho que é a Raquel Riba Rossy que pega uma caneta vermelha e começa a riscar os problemas no desenho. Liniers diz que os dedos da menina eram de salsicha. O próprio Quino, numa entrevista de tevê, diz que não sabia desenhar criança e copiou PEANUTS.
Tem as origens de Mafalda, como garota propaganda de uma campanha publicitária que não deu certo. O documentário vai inclusive atrás dos publicitários que bolaram essa campanha - e pergunta o que eles acham da menina que em seguida virou crítica do consumismo.
Não é um roast de Quino e Mafalda porque, né, todo mundo sabe o que Mafalda virou depois da campanha publicitária que não deu certo e do desenho feio. O que a Mafalda é.
Bom, talvez seja um roast.
Também tem conversas com pesquisadoras e pesquisadores da obra de Quino, gente que entende a fundo, muito fundo, a história de Mafalda, do traço, do que se passava na vida de Quino a cada momento.
Não sei se já vi um documentário tão bom sobre quadrinho. Tem lá seus defeitos: nenhum plano dura mais de dez segundos, pois é feito pra TV/streaming, e aquelas imagens de arquivo de gente pulando pra dizer ERAM OS ANOS 60 cansam. Mas o resto compensa. O conteúdo compensa. Não é só “conteúdo” como falam hoje, coisa pra encher espaço. É “conteúdo” com conteúdo. Muito.
Como eu disse, só vi o primeiro episódio. Tenho altas expectativas para os outros. Talvez eu nem assista os outros, de tanta expectativa. Não me contem.
Escrevi o texto abaixo no dia da morte de Quino a convite do Omelete. Amanhã faz exatamente três anos. Hoje, exatamente hoje, a primeira tira de Mafalda completa 59 anos.
Como eu disse acima, não sou o maior fã e estou longe de ser o maior entendido de Mafalda e Quino. Mas foi o que saiu naquele dia.
A propósito, nunca li toda TODA MAFALDA. Alguém já me disse que o título engana, e que falta coisa ali. Alguém sabe se é verdade?
No dia da morte de Quino, folhear Mafalda ganha outro significado
Todo dia é dia de tirar TODA MAFALDA da estante. Hoje, exatamente no dia de hoje, tirar TODA MAFALDA da estante tem outro significado.
Caio numa tira quase sem texto. Mafalda acorda, coça os olhos, fica em pé na cama. Aí olha para baixo, faz menção de descer. Para e pensa:
"É difícil encontrar ânimo pra descer pro mundo."
Num dia que nem hoje, Mafalda, é mesmo.
De quando é Mafalda?
Tenho 40 anos. Quem tem minha idade pode achar que Mafalda é dos tempos da nossa infância. Se você é mais novo, deve achar que Mafalda é da época dos seus pais, dos seus professores.
Na verdade, Quino parou de produzir Mafalda antes de eu nascer. A última tira saiu em 1973.
A primeira saiu em setembro de 1964 – completou 56 anos ontem, aliás. Quino teve nove anos de produção intensa com a menina, mas foram só nove anos. Um pouco menos que CALVIN & HAROLDO, muito menos que GARFIELD, bem menos que os cinquenta anos de PEANUTS.
Mas Mafalda seguiu nos jornais, seguiu nos livros, está nos adesivos em porta de quarto, bonecas, provas de colégio (“interprete esta tira”), numa infinidade de memes pela internet.
Mafalda não tem época.
Mafalda anda pela casa. Vê uma pilha de roupa passada. O chão da casa brilhando. Louça lavada. Encontra a mãe com as mãos enfiadas na lava-roupa.
"Mamãe, o que você gostaria de ser se tivesse vida?"
"Não era minha intenção que ela durasse tanto. Eu esperava que o mundo melhorasse, mas a política liberal está tornando os ricos cada vez mais ricos e os pobres ainda mais pobres. O resultado dessa política é lastimável", Quino declarou ao jornalista Pedro Cirne de Albuquerque em 1999.
Dizem por aí que tiras, que todos os quadrinhos, são escape. Mesmo quando saem no jornal, do lado das notícias sobre o mundo vindo abaixo.
Mas esse negócio de escape é privilégio de Primeiro Mundo. Mafalda vivia (vive) num país onde os pais chegavam (chegam) em casa arrasados com o que gastaram no supermercado, onde era (é) perigoso falar de política, em que se olhava (olha) torto para a menina que não quer casar e quer ser independente. Era (é) a Argentina, mas podia (pode) ser o Brasil.
Quino ria de tudo isso com a gente. Risadas nervosas. É o máximo de escape que a gente tinha (tem).
Folheando o TODA, cheguei numa clássica. Procure “abollar” no Google Imagens: aparece nos primeiros resultados, mais de uma vez. Virou grafite, virou cartaz em manifestação de rua, virou camiseta.
Mafalda anda pela rua com Miguelito e eles encontram um policial. Mafalda aponta para o cassetete:
“Viu? Esse é o pauzinho de esmagar ideologia.”
Quino não foi só Mafalda. Saiu há dois anos no Brasil ISTO NÃO É TUDO, um best of dos cartuns que ele produziu para um monte de jornais e revistas, ao longo de décadas.
É um material finíssimo. Finíssimo porque é da época em que os cartunistas tinham horas para dedicar aos detalhes de um rosto, à decoração do cenário, ao equilíbrio estético da página. Tudo isso para contar uma ideia simples, engraçada, muitas vezes genial.
Meu cartum preferido é o que mostra uma sala de estar lotada daqueles guardanapinhos de crochê. Tem em cima de cada mesa, de cada aparador, em cima da televisão. Podia ter em cima do gato, do cachorro. A dona da casa está pondo mais um guardanapinho no seu lugar. O marido está colocando um guardanapo sobre o banquinho, onde ele vai subir e se enforcar.
Para cartunistas, imagino, são aulas de hachuras, de traço econômico, de humor gráfico.
E boa parte desses cartuns são mudos. Sem fala alguma. Dizem que Quino também era assim: quieto, fechado, às vezes arisco com os pedidos de entrevista. Dizem, não; ele mesmo dizia: “Decidi desenhar porque falar me custa muito.”
Mafalda mexe no seletor da tevê. Quem só conhece televisor com controle remoto pode precisar de uma nota de rodapé para explicar o que é “seletor da tevê”. Mas a ideia ainda vale hoje. Faça de conta que é o scroll na rede social.
Enfim: Mafalda, mexendo no seletor da tevê.
"Será que tem coisa boa em algum canal? Nada! Em todos é só televisão."
Nas últimas páginas de TODA MAFALDA, há uma (rara) entrevista com Quino. “Quero morrer na Argentina”, ele diz. Conseguiu. Depois de anos entre a Itália e seu país natal, depois da morte da esposa Alicia, em 2017, estava morando na cidadezinha de Chacras de Coria, perto de onde nasceu, Mendoza.
Mafalda, aquela personagem que ele desenhou por nove anos e quase nunca mais, é símbolo da Argentina. Tem a famosa estátua dela sentada num banco de esquina em Buenos Aires, em frente ao prédio onde Quino morou – os turistas fazem fila para sentar com ela e tirar foto. Bonecos, xícaras, quadros, roupas, ímãs de geladeira, livros de todos os formatos e preços: vende-se Mafalda por todo lugar na Argentina. Tudo com aqueles desenhos dos anos 60 e 70.
Diferente da grande maioria dos personagens licenciados, Mafalda não é só sorriso. Nas estampas, ela está de cara fechada e dedo em riste, de cabelos espivetados porque acabou de acordar, olhando preocupada para um globo terrestre. Quem vê Mafalda não vê só uma menininha de cartum – vê a menina crítica, que pensa e ensina a pensar.
A única coisa que nunca muda em Mafalda é a idade. Ela sempre terá seis anos.
Para Quino, infelizmente, a idade chegou. Mas olha só tudo que ele deixou: tudo que não envelhece jamais.
Encontrei um contraponto ótimo a Mafalda e seu posicionamento político num livrinho que li no fim de semana, OS MILAGRES DE WILL EISNER. Tem três entrevistas de Gonçalo Junior com o homem que virou nome de prêmio.
Adoro esta, quando o Eisner fala “sua pergunta é irrelevante”, embora ela não seja.
Depois de THE SPIRIT, o senhor fez uma série de publicações educacionais e para brindes de empresas e associações. Quando aceitava fazer esses trabalhos, o senhor exigia que os mesmos tivessem a ver com suas convicções políticas e ideológicas, ou aceitava qualquer encomenda?
Depois da guerra, comecei a explorar os quadrinhos como uma ferramenta educacional para o setor industrial, pois foi algo que aprendi a desenvolver naquele material que produzia para orientar os soldados. Mais tarde, comecei a empregá-los nas escolas. Como nada disso envolvia crenças ideológicas, sua pergunta é irrelevante.
Pós THE SPIRIT, Eisner fez carreira prestando serviços às forças armadas dos EUA dos anos 1940 a 1960, durante Guerra da Coreia e do Vietnã. Até visitou os países onde os EUA estava em guerra, como contou em O ÚLTIMO DIA NO VIETNÃ – motivo de uma das entrevistas do Gonçalo. Com todo respeito, a pergunta não era irrelevante.
Um pouco à frente, Gonçalo retoma e Eisner responde a mesma coisa, mas com charme:
Policitamente, como o senhor se posicionava na polarização da Guerra Fria nos anos de 1950 e 1960? De algum modo, seus comics participaram do esforço para evitar que o comunismo entrasse na América?
Meu trabalho naquele período foi centrado na condição humana. Meus textos se concentraram na luta do homem pela sobrevivência. Sempre acreditei que o inimigo é a própria vida e que as situações políticas são temporárias.
Comprei OS MILAGRES DE WILL EISNER em uma campanha de Catarse da editora Noir, que prometia que o livro “não será comercializado depois” (da campanha). Mas, se você achar por aí e gostar de ler sobre Eisner, leia.
Aquele gibi do Neil Gaiman (e amigos) foi o foco da semana e rendeu gotas de suor ao tradutor. Escreve muito, esse senhor Gaiman – também no sentido de quantidade. O que é um problema quando o tradutor recebe seus caraminguás por página, tenha a página três balões ou quarenta e dois balões e independente de estes balões dizerem “ATACAR!” ou deturparem uma parlenda britânica do século 18. Te amo e te odeio, Gaiman. 205 páginas de suor.
(Foi anunciado enquanto eu escrevia essa newsletter. Chama-se PAÍS LIVRE: UM CONTO DA CRUZADA DAS CRIANÇAS. Talvez eu faça esse nome mudar. Mais detalhes em breve.)
Em compensação, revisei 48 páginas de gibi que têm mais balões do tipo “ATACAR!”
O projeto MESADOCANTO, que é para ser a toque de caixa, também rendeu mais 36 páginas de primeira tradução e umas sete de revisão. Tenho que entregar os primeiros capítulos na semana que vem.
Teve mais dois capítulos de THROUGH THE LOOKING GLASS.
E revisei pela última, última, ultimíssima vez, na boca da gráfica, o posfácio de LITTLE NEMO VOL. 2, que deve ficar pronto em outubro. Gosto muito desse texto. Era pra ter sido uma coisinha rápida só para o primeiro volume, acabou pegando umas 12 páginas (gigantes) nos dois volumes.
Amanhã é Dia do Tradutor e da Tradutora – ou Dia de Quem Traduz – e gravamos um episódio do NOTAS DOS TRADUTORES sobre o dia. O deste ano foi só entre nós três - eu, Carlos Rutz e Mario Barroso - e entra no ar amanhã.
No ano passado, pela mesma ocasião, fizemos um episódio de que eu gosto muito, em que convidamos 13 tradutoras e tradutores para contar como é um dia de trabalho. Dá pra ouvir aqui.
Os links abaixo são de trabalhos meus com lançamento em breve. Comprar pelos links da Amazon me rende uns centavos. Se puder, use os links.
em outubro
SANDMAN APRESENTA VOL. 7: BAST & O CORÍNTIO, Caitlín R. Kiernan, Joe Bennett, Darko Macan, Danijel Zezelj, panini
KULL: A ERA CLÁSSICA (OMNIBUS), Roy Thomas, Berni Wrightson, Marie Severin, John Severin, Doug Moench, John Bolton, Chuck Dixon, Dale Eaglesham e grande elenco, panini
ANIQUILAÇÃO: A CONQUISTA (OMNIBUS), Dan Abnett, Andy Lanning e grande elenco, panini [traduzi só os extras]
VAMPIRO AMERICANO, EDIÇÃO DE LUXO VOL. 4, Scott Snyder, Rafael Albuquerque e companhia, panini
SETOR UM, Colson Whitehead, harpercollins
CONTOS DOS SUBÚRBIOS DISTANTES, Shaun Tan, darkside
MONICA, Dan Clowes, nemo
em novembro
A BRIGADA DOS ENCAPOTADOS, K.W. Jeter, John K. Snyder III, Dave Louapre, Dan Sweetman, Alisa Kwitney, Guy Davis, John Ney Rieber, John Ridgway, panini
CAPITÃ MARVEL VOL. 9, Kelly Thompson, Sergio Dávila, Marguerite Sauvage, Torun Gronbekk e mais, panini
ESTÁ TUDO BEM VOL. 1, Mike Birchall, suma
LITTLE NEMO VOL. 2: 1910-1914, Winsor McCay, figura [a tradução é de Cesar Alcázar; eu escrevi um posfácio compriiiido]
em dezembro
CONAN, O BÁRBARO: A ERA CLÁSSICA VOL. 7, James Owsley, John Buscema, Val Semeiks e mais, panini
TERRA LIVRE: UM CONTO DA CRUZADA DAS CRIANÇAS, Neil Gaiman, Chris Bachalo, Alisa Kwitney, Jamie Delano, Peter Snejbjerg, Toby Litt, Peter Gross e mais, panini
vem aí
NUNCA ME ESQUEÇAS, Alix Garin, moby dick [já existe, quem apoiou no catarse está recebendo; mas ainda não está à venda pra todo mundo]
NOVEMBRO VOL. 3 e 4, Matt Fraction e Elsa Charretier, risco
VOLEUSE, Lucie Bryon, risco
HOW TO e WHAT IF 2, Randall Munroe, companhia das letras
CHEW VOL. 4, John Layman e Rob Guillory, devir
KRAZY & IGNATZ VOL. 2: 1919-1921, George Herriman, skript
COMIC BOOKS INCORPORATED, Shawna Kidman
ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, Lewis Carroll
mais BONE de Jeff Smith (e amigos), todavia
+ Adrian Tomine
+ Tom Scioli
+ Tom Gauld
+ Ray Bradbury
+ Shaun Tan
+ Conan
Todas as minhas traduções: ericoassis.com.br
Marion Fayolle, LA MAISON NUE [amazon]
Horacio Altuna e Carlos Trillo em CHARLIE MOON. Tradução de Jana Bianchi, edição da Risco. [loja risco]
Não é uma página, mas é que eu assisti A BALEIA esta semana, terminei atropelado, arrasado, mas feliz, e descobri que muita gente não conhece esse cartaz e nem sabia que é um cartaz pintado pelo James Jean (o cara das capas de FÁBULAS).
“O que a sua mamãe tanto escreve à máquina?”
“Traduções de livros, porque o que meu pai ganha só dá pra pagar o apartamento.
Minha mamãe sabe francês. Os franceses escrevem os livros em francês, ela copia do jeito que nós falamos e, com o que ela cobra, ela compra macarrão e essas coisas.
Tem um cara… como é que é o nome?… janpô… janpô belmon… não!… janpô… sastre? É assim?”
“Ah! Sartre?”
“Esse! O último frango que a gente comeu foi ele que escreveu.”
Quem me mostrou essa foi um amigo da tradução, Fernando Scheibe.
Feliz dia de quem traduz.
Esta newsletter chegou aos 1000 assinantes na terça-feira, dia 26.
Estou falando de um nicho para um nicho de um nicho de um nicho de gente que ainda lê. Não imaginei que vocês fossem tantos.
Muito obrigado a todos que assinam, que leem e que divulgam.
Boas páginas para sua semana.
























Tu me lembrou, pelas rimas e pelos contrastes, dos porno-faxineiros postos pelo Kevin Smith no gibi do Arqueiro Verde.
Que saudade que eu tava dos teus textos!