009: PELOTAS
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Três quadrinhos que foram publicados entre setembro e outubro deste ano: A CANÇÃO FANTASMA, de Samanta Flôor; ORDINÁRIO, de Rafael Sica; e BATMAN: GÁRGULA DE GOTHAM, de Rafael Grampá.
O primeiro é uma história de fantasma para crianças. O segundo é uma coletânea de tiras sem falas. O terceiro é um gibi do Batman.
São três quadrinhos que não têm nada a ver, fora serem quadrinhos, terem sido lançados muito próximos e serem três quadrinhos de pelotenses.
A CANÇÃO FANTASMA, Samanta Flôor, darkside [amazon]
ORDINÁRIO: EDIÇÃO REVISTA E AMPLIADA, Rafael Sica, quadrinhos na cia. [amazon]
BATMAN: GARGOYLE OF GOTHAM 1, Rafael Grampá (com Matheus Lopes), dc [amazon]
Três autores de Pelotas, Rio Grande do Sul, lançando três quadrinhos quase ao mesmo tempo é um fato para o qual você não dá bola se você não for de Pelotas. Eu sou, então vou dar bola.
Mas não sou só eu que dou bola. Os três quadrinhos são de editoras grandes, que prestaram atenção nos dois Rafaéis e na Samanta.
CANÇÃO FANTASMA, que saiu pela Darkside, é uma graphic novel infantil do tipo que faz falta no mercado brasileiro – da categoria que faz quadrinho entrar nos livros mais vendidos nos EUA. É a primeira vez que vejo a Samanta escrevendo e desenhando com fôlego de maratonista – são 300 páginas. Em capa dura, pra quem se importa com isso.
ORDINÁRIO é uma reedição do primeiro livro do Sica, que fez mais de dez anos. A nova edição é revista e ampliada. A capa preta virou amarela. As tiras não são cômicas, nem (necessariamente) filosóficas – são vinhetinhas do cotidiano, às vezes com um toque de surrealismo. O traço me lembra um giz guinchando na lousa. É brilhante no que tem de incomparável com qualquer outra coisa. Sai pela maior editora nacional, a Companhia das Letras, selo Quadrinhos na Cia.
BATMAN: GÁRGULA DE GOTHAM é o primeiro de quatro volumes (as cores são de Matheus Lopes). Foi lançada simultaneamente nos EUA (DC), Espanha (ECC), Alemanha, Itália e Brasil (Panini nas três). Grampá tem público cativo, imediato, em todos os países, que já aguardam o volume 2. Aqui, a dita “gibisfera” leu e se dividiu entre achar brilhos e defeitos. Mas toda “gibisfera” se sentiu na obrigação de ler e comentar.
ORDINÁRIO, Rafael Sica, quadrinhos na cia.
Grampá passou só os cinco primeiros anos de vida em Pelotas, na Cohab Duque. Como disse numa entrevista ao Cowcast, tem lembranças de desenhar o lobo da Churrascaria Lobão. Ele passou o resto da infância e a adolescência em Cachoeirinha e está radicado em São Paulo há mais de vinte anos. Ainda tem sotaque gaúcho, mas a Gotham City de seu BATMAN é bem paulistana.
Samanta nasceu em Porto Alegre e lembra de chegar em Pelotas para a quarta série, então eu chamo de pelotense. Ficou aqui na adolescência, fez faculdade por aqui. Fomos colegas no ensino médio, mas, como bons pelotenses, um não falava com o outro e um não sabia que tinha uma pessoa pra conversar sobre X-Men. As ruas, as casas, os sotaques de CANÇÃO FANTASMA têm Pelotas. São as casas do Bairro do Limoeiro, mas com platibanda ornamentada. Também é o primeiro registro de um personagem de HQ respondendo “merece” quando alguém diz “obrigado” – um patrimônio imaterial dos diálogos pelotenses.
Eu e o Sica também somos contemporâneos: ele entrou um ano antes ou depois de mim na mesma faculdade de Jornalismo. Já escrevi sobre as Pelotas que ele desenha quando saiu outro livro seu, FACHADAS (resenhei para a Folha de S. Paulo), e quando ele lançou outro quadrinho, MEU MUNDO VERSUS MARTA (com Paulo Scott, que comentei no Blog da Companhia). O Sica não consegue fugir do cimento penteado e das paredes manchadas de umidade nem quando desenha.
BATMAN: GARGOYLE OF GOTHAM NOIR EDITION n. 2, Rafael Grampá, dc
Eu já escrevi pelo menos mais um texto tentando entender esse vínculo entre Pelotas e quadrinhos. Foi coluna no Blog da Companhia e hoje é um dos textos do BALÕES DE PENSAMENTO. Lá eu aventei a culpa da chuva: quando chove em Pelotas, a chuva dura dias, uma semana. Então você tem que inventar alguma coisa pra fazer em casa. Desenhar, quem sabe.
Na época, perguntei para o Odyr, também quadrinista, também pelotense. Ele puxou a proximidade com Uruguai e Argentina, estética do frio, “o desenho como pensamento versus a pintura-cor como visualização instintiva e solar; se você olhar, de fato, subindo o Brasil se vê mais pintura”. E o desenho “somado com um flair para a literatura” dá quadrinho.
Além de Grampá, Sica, Samanta e Odyr, tem André Macedo, Maumau, Fernanda Moreira, Julia Arostegi. Renato Canini veio morar o fim da vida aqui, ganhou título de Cidadão Pelotense. E tem a geração mais recente, como Jonas Fernando Martins Santos, Alessandro Flores, mais tanta gente que eu não conheço.
Dessa vez perguntei para os três pelotenses em pauta: “O que tem na água de Pelotas para gerar quadrinista?” Um filosofou como o Odyr, dois foram lacônicos.
Grampá:
🤷🏻♂️
Difícil responder essa tua pergunta. Só sei que doces de Pelotas e HQs viciam.
Sica:
Essa resposta não sabemos, é realmente um mistério. Talvez porque Pelotas tenha uma escola de belas artes desde os anos 40, ou porque teve uma imprensa também precoce, talvez pela planta quadriculada de suas ruas, ou pelo clima rigoroso que faz a gente ficar mais tempo dentro de casa. Talvez seja apenas uma boa e grande coincidência. Não sei, apenas bebi um gole dessa água.
Mas acho que essa curiosidade só se dá por ser quadrinho, por ser uma arte menos praticada. Pelotas também tem muitos músicos, poetas, escritores, cineastas e por aí vai.
Samanta:
Mofo? Haha.
A CANÇÃO FANTASMA, Samanta Flôor, darkside
Numa entrevista recente na tevê, Marcelo Tas dedicou uns minutos a tratar da origem pelotense de Rafael Grampá. Disse que ele é da mesma terra de Lobo da Costa, Kleiton & Kledir, Eduardo Leite e do Padre do Balão. (Eu não sabia que o Padre do Balão era pelotense.)
Todo dia deve sair três quadrinhos de paulistanos. Ou de cariocas. Se você somar todos os seguidores do Paulo Moreira e do Mike Deodato, dá mais que a população da cidade deles, João Pessoa.
Mas Pelotas é uma cidade pequena na ponta sul do Brasil. É quase Uruguai. Não é capital de nada. Está completando cem anos de decadência econômica. Por que quadrinhos e Pelotas?
Não sei, não entendo. Não sou o Alan Moore pra ficar pensando livros sobre minha Northampton. Nem curto tanto o berço, apesar de ser meu berço. Só bebi a água com mofo e, quando choveu, fiquei lendo gibi em vez de desenhar. Mas dá um orgulho ter conterrâneos tão diferentes entre si levando quadrinhos tão diferentes pro mundo.
A CANÇÃO FANTASMA, Samanta Flôor (com Pri Wi), darkside [amazon]
ORDINÁRIO: EDIÇÃO REVISTA E AMPLIADA, Rafael Sica, quadrinhos na cia. [amazon]
BATMAN: A GÁRGULA DE GOTHAM 1, Rafael Grampá (com Matheus Lopes), panini [amazon]
“Teve uma vez, na guerra, que um cara morreu [quando estava] comigo. Ele olhou pra mim e disse: ‘O que foi que aconteceu? O que aconteceu?’ E lá estava eu, um panaca do East Side, saca? O que eu respondo pro cara? Eu falei: ‘Você aconteceu.’ Entende? Aquilo foi real. Eu comecei a pensar no valor dos seres humanos; foi ali que eu descobri que eu sou humano. Foi ali que eu descobri que todo mundo é.”
A página é de THE SUPERHERO’S JOURNEY, de Patrick McDonnell [kindle]. A citação vem da entrevista que o Kirby deu pra uma rádio em 1987 no dia em que completou 70 anos – que ficou famosa porque, no final, o Stan Lee telefonou para a rádio, entrou no ar ao vivo e ele e o Kirby tiveram um bate-boca sobre quem criou o quê.
Eu não conhecia esse trecho. Dá para ler a transcrição da entrevista aqui.
Encarei o Jabberwocky. THROUGH THE LOOKING GLASS está traduzido do início ao fim, mas deixei as partes perrenguentas para a segunda etapa. Acordei com coragem na quarta-feira e encarei o poeminha do primeiro capítulo cheio dos neologismos. Foi uma manhã inteira para resolver sete estrofes. (899 toques, R$ 20,23 para o tradutor!)
Falei com Carlão e Mario, gravamos um episódio de NOTAS DOS TRADUTORES sobre Jabberwocky, Lewis Carroll, traduções de Alice e por que Monteiro Lobato era um preguiçoso. Entra no ar neste domingo.
E não consegui fazer mais nada com a Alice, fora revisar o primeiro capítulo. Um Jabberwocky foi demais.
Entreguei 48 páginas do projeto MESADOCANTO. Falta pouca coisa, morre na semana que vem. Aí posso voltar para AGATHA10.
Traduzi mais cento e poucas páginas do gibi ralo e acabei a primeira versão do texto. Reviso na semana que vem. Traduzi mais umas sessenta páginas do gibi denso e devo traduzir mais depois da newsletter.
Os links abaixo são de trabalhos meus com lançamento em breve. Comprar pelos links da Amazon me rende uns centavos. Se puder, use os links.
em outubro
SANDMAN APRESENTA VOL. 7: BAST & O CORÍNTIO, Caitlín R. Kiernan, Joe Bennett, Darko Macan, Danijel Zezelj, panini
VAMPIRO AMERICANO, EDIÇÃO DE LUXO VOL. 4, Scott Snyder, Rafael Albuquerque e companhia, panini
SETOR UM, Colson Whitehead, harpercollins
CONTOS DOS SUBÚRBIOS DISTANTES, Shaun Tan, darkside
MONICA, Dan Clowes, nemo
O GATO PETE E OS QUATRO BOTÕES BACANÕES, James Dean e Eric Litwin, harpercollins
POR QUE NÃO PEDIRAM A EVANS? (audiolivro), Agatha Christie, harpercollins
HYPERION (audiolivro), Dan Simmons, storytel
em novembro
KULL: A ERA CLÁSSICA (OMNIBUS), Roy Thomas, Berni Wrightson, Marie Severin, John Severin, Doug Moench, John Bolton, Chuck Dixon, Dale Eaglesham e grande elenco, panini
A BRIGADA DOS ENCAPOTADOS, K.W. Jeter, John K. Snyder III, Dave Louapre, Dan Sweetman, Alisa Kwitney, Guy Davis, John Ney Rieber, John Ridgway, panini
ANIQUILAÇÃO: A CONQUISTA (OMNIBUS), Dan Abnett, Andy Lanning e grande elenco, panini [traduzi só os extras]
CAPITÃ MARVEL VOL. 9, Kelly Thompson, Sergio Dávila, Marguerite Sauvage, Torun Gronbekk e mais, panini
ESTÁ TUDO BEM VOL. 1, Mike Birchall, suma
LITTLE NEMO VOL. 2: 1910-1914, Winsor McCay, figura [a tradução é de Cesar Alcázar; eu escrevi um posfácio compriiiido]
em dezembro
CONAN, O BÁRBARO: A ERA CLÁSSICA VOL. 7, James Owsley, John Buscema, Val Semeiks e mais, panini
TERRA LIVRE: UM CONTO DA CRUZADA DAS CRIANÇAS, Neil Gaiman, Chris Bachalo, Alisa Kwitney, Jamie Delano, Peter Snejbjerg, Toby Litt, Peter Gross e mais, panini
SANDMAN APRESENTA VOL. 8: TEATRO DA MEIA-NOITE, Neil Gaiman, Matt Wagner, Teddy Kristiansen e outros, panini [metade do volume tem outras HQs por outros tradutores]
vem aí
NUNCA ME ESQUEÇAS, Alix Garin, moby dick
NOVEMBRO VOL. 3 e 4, Matt Fraction e Elsa Charretier, risco [a campanha de financiamento do volume 4 começa em breve]
VOLEUSE, Lucie Bryon, risco
HOW TO e WHAT IF 2, Randall Munroe, companhia das letras
CHEW VOL. 4, John Layman e Rob Guillory, devir
KRAZY & IGNATZ VOL. 2: 1919-1921, George Herriman, skript
COMIC BOOKS INCORPORATED, Shawna Kidman
ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, Lewis Carroll
mais BONE de Jeff Smith (e amigos), todavia
+ Adrian Tomine
+ Tom Scioli
+ Tom Gauld
+ Ray Bradbury
+ Shaun Tan
+ Craig Thompson
+ Will Eisner
+ Conan
Todas as minhas traduções: ericoassis.com.br
Quatro páginas de MER À BOIRE, de Blutch (2024). Lindas e fora de ordem. Tão lindas quanto incompreensíveis. Um Fellini dos quadrinhos.
Ganhou um prêmio importante esses dias. Tem na Lireka.
De Eduardo Arruda, para O GLOBO. Vi aqui.
A dedicatória de QUADRINHOS DOS ANOS 20, do André Dahmer (quadrinhos na cia.). Vi aqui.
FUNNY THINGS: A COMIC STRIP BIOGRAPHY OF CHARLES SCHULZ, Luca Debus e Francesco Matteuzzi (top shelf). Quando Schulz não conseguia mais firmar a mão para desenhar. Cruel. [kindle]
COSMIC DETECTIVE, David Rubín (desenho, cores, letras), com roteiro de Jeff Lemire e Matt Kindt (image). Atenção no Charlie Brown. [amazon]
Rafael Sica, ORDINÁRIO (quadrinhos na cia.)
No meio da semana, mandei uma cartinha para avisar que abri as assinaturas pagas da VIRAPÁGINA. Se você quiser e puder, paga R$ 12 por mês ou R$ 120 por ano para apoiar a continuidade dessa newsletter.
E é só isso: se você quiser e puder.
Obrigado a quem já contribuiu e obrigado a todos que assinam. Tem assinante novo todos os dias! Obrigado por virar páginas comigo.




























Maravilhoso texto, muito feliz de estar ali 🖤
Eu nasci em Bagé, mas moro aqui desde meus 10 anos; meus três filhos são pelotenses. Confesso que amo esse lugar, cara. Espero um dia ter a honra de entrar nesse rol de artistas tão fodas daqui (se a Samantha é de POA e é pelotense, tb quero)