077: ELE NUNCA CHUTOU A BOLA
25 anos sem PEANUTS e sem Charles Schulz
Hagar chega na esposa, Helga, vestindo uma camiseta amarela com um ziguezague preto. “Helga! O que achou do meu novo visual?” Helga reage em letras garrafais: “Que puxa!”
Recruta Zero, General Dureza e Sargento Tainha param em posição de sentido enquanto um balão gigante de Snoopy passa no céu. “Nossa saudação a Snoopy e Sparky”, diz a tira. “Ficaremos com saudade, velho amigo.”
Dilbert foi chamado pelo médico da firma. “Sabemos que os funcionários acham chato quando tem exame toxicológico surpresa. Por isso, oferecemos castanha de caju de brinde”, diz o doutor. Dilbert fala: “De repente eu pensei no Charlie Brown, não sei por quê”.
Garfield, com sua cara de poucos amigos, chega na casinha de cachorro vermelha, dá uma conferida e deita-se em cima. “Suspiro”, diz seu único balão.
Em 27 de maio de 2000, mais de 80 tiras de jornal dos EUA e do mundo prestaram homenagens simultâneas a PEANUTS e a Charles Schulz. Teve menções a frases famosas da tira, teve gente que redesenhou tiras icônicas, teve quem desenhou Charles Schulz na prancheta e teve encontros especiais de Snoopy e Charlie Brown com outros personagens. O Homem-Aranha, que na época tinha tira diária, prendeu Lucy com a teia e deixou Charlie Brown chutar a bola.
Além da piadinha do dia, muitas tiras vieram com mensagens extra: “Nossa homenagem a Sparky e Snoopy”, Brad Anderson anotou em MARMADUKE. “Mr. Schulz, que saudade”, Chris Browne comentou num cantinho daquela tira de HAGAR.
No mesmo dia, um sábado, 600 integrantes da National Cartoonists Society reuniram-se para o jantar black tie em que Schulz recebeu o Milton Caniff Lifetime Achievement Award, prêmio pelo conjunto da obra. Patrick McDonald, autor da tira MUTTS, discursou: “Quero deixar bem claro: Charles Schulz foi o maior cartunista que já existiu.”
O prêmio foi entregue à esposa de Schulz, Jeannie. Charles não estava lá, pois tinha falecido há três meses. No período que incluiu o anúncio de sua aposentadoria, as últimas tiras de PEANUTS, o falecimento e as semanas após, houve uma movimentação de homenagens, de declarações e de lembranças que nunca havia se visto para um autor de quadrinhos. E que nunca mais se viu.
— O telefone era pra você… expliquei que você não atende mais em pessoa. Que você leva uma vida reclusa, que optou por não fazer parte do mundo lá fora. Fui a voluntária da casa pra atender o telefone por você.
— Eu ia dizer uma coisa, mas não estou nesse mundo..
O fim começou em 16 de novembro de 1999. Schulz estava no seu estúdio, trabalhando nas tiras para a última semana do ano. Segundo seu biógrafo, David Michaelis, o momento exato foi quando o desenhista estava fazendo o pé de Charlie Brown no último quadro da tira de 31 de dezembro – o garoto está afundado num pufe e Schulz achou os pés muito pequenos (ver acima). Ele também sentiu “alguma coisa afundando dentro de si – a parte inferior do corpo vergou e ele perdeu a sensação nas pernas, o que o obrigou a largar a caneta. Só conseguiu se levantar com muito esforço.”
Schulz conseguiu juntar uma leva de tiras e foi levá-las à sala de sua diretora de criação, Paige Braddock –contratação recente da One Snoopy Place, ela tinha começado a fazer as letras e retoques digitais em PEANUTS. No caminho, Schulz deixou todo o material cair no chão. Abaixou-se para recolher e perdeu o fôlego. Encostado na porta de Braddock, ele disse: “Ih, Paige. Estou estranho.”
Schulz foi levado às pressas para o Hospital Memorial de Santa Rosa. Os médicos encontraram uma obstrução na aorta, que havia provocado vários AVCs. Durante a cirurgia para resolver o problema de circulação, encontraram tumores no intestino grosso. O autor estava com câncer terminal. A família foi informada que, naquela condição, ele teria no máximo dois anos de vida.
Uma semana depois, ele ainda estava internado e começou a quimioterapia. Foi o dia em que pegou o lápis e tentou rabiscar um Linus e um Snoopy no prontuário médico. O traço saiu mais tremido que de costume.
Schulz comemorou o Dia de Ação de Graças no hospital, assim como seu aniversário de 77 anos, no dia 26. Mesmo com a visão e a memória debilitados, teve alta no dia 30 de novembro.
Uma semana depois, teve que voltar ao hospital devido a outro coágulo. “Ele não conseguia comer, estava desidratado e ficou muito deprimido quando se deu conta que não conseguia fazer nada”, escreve seu biógrafo. “Não conseguia ler, desenhar, dirigir. Tinha dificuldade para falar; as palavras vinham a muito custo. Tudo isso seria tolerável e ele ainda teria esperanças de voltar à prancheta, não fossem mais dois fatores: a quimioterapia começou a provocar enjoos e a chance de sobrevivência do câncer de cólon, em estágio IV, era de vinte porcento.”
De volta para casa, ele começou a comentar com Jeannie e com Paige Braddock que era hora de encerrar a tira. “Ele estava debilitado por causa da químio e resolveu que ia se aposentar”, diz Jeannie no documentário Who Are You Charlie Brown? “Lembro com muita clareza quando ele disse: ‘Não consigo mais desenhar.’”
No mesmo documentário, Braddock comenta: “Estávamos conversando sobre a última tira. Ele estava ali, a poucos metros, olhou pra mim, riu e disse: ‘Até que eu desenhei umas coisas engraçadas.’ E dava para sentir como ele estava triste por se dar conta que não ia mais desenhar.”
Em 14 de dezembro de 1999, Schulz divulgou uma carta aberta ao mundo. Devido aos problemas de saúde, ela ia parar de desenhar Peanuts e anunciava que a última tira seria publicada no início de 2000.
Caros Leitores, Parceiros, Colegas Cartunistas e Amigos de perto e de longe:
Sempre quis ser cartunista e me considero abençoado de poder fazer o que fiz durante 50 anos. Vocês, ao acolherem Snoopy, Charlie Brown, Lucy e Linus e todos os personagens de PEANUTS, foram minha motivação constante.
Acho importante dizer em pessoa que decidi me aposentar de PEANUTS a partir da tira publicada na segunda-feira, 3 de janeiro de 2000 (e da dominical de 13 de fevereiro) para me concentrar no tratamento e recuperação do câncer de cólon. Embora eu me sinta bem após a última cirurgia, quero focar na minha saúde e na minha família sem a preocupação de um cronograma de trabalho diário.
Obrigado pela gentileza de todos e por tantos anos de apoio, assim como pelas diversas manifestações pelo meu bem-estar desde a cirurgia.
Atenciosamente,
Charles M. Schulz
Nas tiras de jornal dos EUA, sucessos são feitos para durar para sempre. Dik Browne (1917-1989) aposentou-se de HAGAR e confiou a tira ao filho Chris Browne (1952-2023), que depois a passou a outro ilustrador. Hank Ketcham (1920-2001) aposentou-se de DENNIS O PIMENTINHA para ficar pintando, assim como Mort Walker (1923-2018), criador de RECRUTA ZERO, entregou sua tira aos filhos e assistentes décadas antes de falecer. RECRUTA e DENNIS completaram 70 anos de publicação ininterrupta respectivamente em 2020 e 2021 - sem os pais.
ANINHA, A ÓRFÃ saiu por 86 anos pelas mãos de vários cartunistas. THE KATZENJAMMER KIDS, criada por Rudolph Dirks (1877-1968) em 1897, teve tiras novas todo dia durante 109 anos – o recorde, segundo o Guinness Book. GASOLINE ALLEY, que estreou em 1918, continua sendo publicada e pode bater o recorde se chegar a 2027; o criador Frank King (1883-1969) faleceu há mais de 50 anos.
PEANUTS foi o maior sucesso da história das tiras de jornal: nunca havia acontecido de uma tira chegar a 2600 publicações em 75 países, com um número de leitores estimado em 355 milhões. Schulz, porém, tinha estipulado há anos que ninguém ia substituí-lo e sua família concordou. Assim que ele falecesse, não haveria mais uma tira nova.
Foi do leito do hospital, em novembro de 1999, que Schulz ditou a última PEANUTS para Paige Braddock. Sem saber se conseguiria voltar a desenhar, o cartunista sugeriu fazer uma tira dominical recortando desenhos de tiras clássicas. A própria Braddock fez a primeira escolha das imagens: Lucy e uma bola de futebol, Woodstock no limpa-gelo sobre a fonte congelada, Patty Pimentinha e Marcie na sala de aula.
Quando Schulz voltou ao trabalho, ele sugeriu mais imagens a Braddock: Snoopy de ás da Primeira Guerra, Lucy na banquinha de psiquiatra, a bola de beisebol batendo na cabeça da mesma menina e fazendo “BONK!”, Snoopy tentando roubar o cobertor de Linus. A tira foi montada com estes recortes e uma faixa superior onde Charlie Brown atende o telefone para dizer “Não, acho que ele está escrevendo” e, em seguida, Snoopy no alto de sua casinha, com a máquina de escrever (os dois quadros superiores foram reaproveitados da tira de 21 de novembro de 1999). “Caros Amigos…”, começa a carta, similar à que ele tinha enviado em dezembro.
Naquele mesmo ano, Schulz havia sido entrevistado pelo jornalista e âncora de TV Al Roker – um devoto de PEANUTS. A conversa gravada havia ido ao ar, coincidentemente, no dia em que Schulz havia dado entrada no hospital, em novembro.
Em fins de dezembro, Roker recebeu uma ligação de Jeannie Schulz, informando que o marido gostaria de conceder mais uma entrevista.
Em comparação, as imagens de Schulz gravadas no início daquele ano e no final parecem de pessoas diferentes. Na última conversa, porém, o cartunista ainda consegue falar com clareza, apesar de ter um momento de olhos marejados.
“O senhor já fez as pazes com a ideia de que não vai mais conseguir trabalhar na tira?”, pergunta Roker.
“Só aceitei de verdade quando eu estava escrevendo uma espécie de despedida [o texto da tira final]. Aí, bem no fim, escrevi meu nome… e desculpe, eu acho que vou chorar… Olha aqui o Charlie Brown, o Linus, assim por diante… De repente eu pensei: ‘Olha isso. Pobre garoto. Ele nunca chutou a bola.’”
Schulz estava meses adiantado em PEANUTS antes de os problemas de saúde encerrarem sua produção, em novembro. Tinha tiras diárias prontas até início de janeiro, dominicais até início de fevereiro.
Na última das diárias, que saiu exatamente em 1º de janeiro de 2000, Patty Pimentinha e Marcie estão jogando bolas de neve em Charlie Brown e Linus. Snoopy está sentado num canto, uma bola de neve na mão. A legenda diz: “De repente o cachorro percebeu que seu pai nunca havia lhe ensinado a jogar bolas de neve…”
Não se sabe se foi exatamente esta a última tira que Schulz desenhou, mas é uma última frase que bate fundo. Apesar das despedidas oficiais terem vindo depois, a constatação de Snoopy se refere a um pai (seu pai cachorro? Seu pai Charlie Brown? Charles Schulz?), a coisas que o pai não ensinou e que nunca ensinará. É uma frase que fala de saudade.
No dia 12 de fevereiro de 2000, sábado, Schulz havia ido assistir a um jogo de hóquei com amigos, passou mal, voltou para casa e foi atendido por um médico da vizinhança. Estava com náusea, provavelmente por conta da químio. Sugeriram que ele fosse se deitar. Jeannie o deixou na cama por volta das 21h. Ele não acordou.
Em questão de horas, na madrugada do dia 13, chegariam às bancas e às portas do mundo inteiro os jornais com a última tira de PEANUTS.
A virapágina sai mais cedo esta semana porque não é todo dia que se lamenta os 25 anos daquela coincidência - a coincidência que você pode achar macabra ou carregada de outros significados: 13 de fevereiro de 2000 foi o dia da última tira de PEANUTS, na qual Charles Schulz anunciava sua aposentadoria - e a tira saiu horas depois de o autor falecer.
Escrevi este texto para a COLEÇÃO SNOOPY, CHARLIE BROWN & FRIENDS, da editora Planeta DeAgostini. Revisei, mudei algumas coisas e fiz uns acréscimos. Quem acompanha a virapágina sabe que já recorri a esses textos em outras ocasiões:
Quem me lembrou da data foi o genial crítico espanhol Pedro Paredes. Se você quer lágrimas nos olhos, acompanhe o Pedro nessa leitura sobre morte e despedida em uma das últimas tiras de PEANUTS.
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Meu nome é Érico Assis. Sou jornalista e tradutor. Escrevo profissionalmente sobre quadrinhos desde 2000, traduzo profissionalmente desde 2009. Sou um dos criadores do podcast Notas dos Tradutores, colaboro com o canal de YouTube 2Quadrinhos e com o programa Brasil em Quadrinhos do Ministério das Relações Exteriores. Dou cursos de tradução na LabPub. E escrevo esta nius.
Publiquei dois livros: BALÕES DE PENSAMENTO 1 e 2, disponíveis em formato digital e físico na Amazon.
Tem mais informações no meu website ericoassis.com.br.
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E que você vire ótimas páginas até a semana que vem.
























Chorando no trabalho, o que provavelmente vai me dar uma dor de cabeça mais tarde, mas amo suas newsletters de Schulz. <3
Que textaço, Erico, parabéns... Mestre Schulz está agradecendo a você neste momento :)