083: THE F*CK YOU FOREST
rosalie lightning, tom hart | we all wish for deadly force, leela corman | the f*ck you forest, leela corman | sorteio todavia | dindim | minha semana | páginas viradas
as merdas absurdas que passam pela sua cabeça quando você vai desenhar a cena em que sua filha morreu:
1- não usar a palavra “morreu”. deixe em branco e depois você cola letra por letra de outra parte da página
2- desenhe só alguns quadros — o quadro em que você tocou nas costas dela para acordar, naquela manhã — desenhe em outra folha e depois você cola. se você desenhar na prancha mesmo, pode ser que vire verdade
3- trabalhe em camadas e torça que depois se encaixem
4- faça tudo que for possível para não ser literal. faça com que tudo tenha mais de um sentido. se tiver que ficar muito rabiscado é porque você está no caminho certo. porque aí quem sabe talvez dê pra voltar atrás
5- deixar o lápis no arquivo do photoshop, por baixo. se precisar…
Tom Hart e Leela Corman são um casal de quadrinistas. Ele apareceu na cena independente dos EUA no início dos anos 1990 e ficou conhecido principalmente pelo personagem Hutch Owen. É um quadrinista para quadrinistas — Craig Thompson, de RETALHOS e HABIBI, é grande fã — e foi professor de quadrinhos em Nova York por uns anos. Corman, que se identifica “ilustradora, cartunista e dançarina ao estilo Oriente Médio”, lançou uma graphic novel bem comentada em 2012, UNTERZAKHN, sobre garotas judias crescendo na Nova York de cem anos atrás. Seus trabalhos atuais tendem para o documental: a história da dança do ventre, o Egito pós-revolução, músicos itinerantes na Europa medieval.
Hart e Corman estavam morando em Nova York e cansando de Nova York quando a economia mundial veio abaixo em 2008. Em meio aos planos de mudar para a Flórida, onde haviam se conhecido, tiveram uma filha: Rosalie Lightning. O primeiro nome veio de uma música de Brian Eno. “Lightning”, relâmpago, porque ela era filha de autores de gibi.
Eles mudaram-se para a Flórida. Estavam tentando vender o apartamento em Nova York, mas nada dava certo. O dinheiro estava curto. O carro deles pifou. Estavam com trabalho atrasado. Tentavam distrair Rosalie com a nova casa, a nova vizinhança, os novos brinquedos. Enfim: apertos da vida, todo mundo já passou.
Só que, um dia, Rosalie não acordou.
Tenho uma filha, que está com três anos. Quando ela tinha um ano, talvez antes, eu a doutrinei a gostar de MEU AMIGO TOTORO. Antes de falar direito, ela imitava os personagens levantando os braços naquela cena em que eles fazem as sementinhas virarem uma árvore gigante.
“RL”, a HQ autobiográfica de Tom Hart, começa com esta cena. Rosalie Lightning adorava Totoro e também ficava levantando os braços junto a Totoro, Satsuki, Mei e os mini-Totorinhos. Ela também ficava juntando as bolotas que caem das árvores, por causa do filme.
Não ouso, de forma alguma, comparar o que eu sinto ao “desabando” de Hart. Mas “RL” me amassa por dentro. Não é só pela coincidência do Totoro, mas com certeza é por ter uma filha e, como todo pai (ou não?), viver nessa iminência de que a coisa mais importante que você ajudou a criar pode sumir de um dia para o outro. Ou melhor: viver tentando não pensar nessa iminência. Que, para Hart, não foi só iminência.
“RL” é uma das HQs mais bonitas que já li. Fico pensando se ela tem algum significado para quem não tem filhos, ou quem não encara a paternidade como eu encaro. Ou como eu leria “RL” se ela existisse quatro anos atrás, antes de eu ser pai. Nossas histórias preferidas têm algo a ver com a nossa experiência pessoal, sem dúvida. Mas será que isso não invalida toda crítica, no sentido de a crítica propor outras formas de ler uma obra — como estou fazendo agora — que eu só consigo ler assim porque eu sou eu?
“RL” deve virar uma graphic novel nos próximos anos. Por enquanto, Hart publicou dois capítulos em versão digital. Descobri a história lendo uma antologia, a BEST AMERICAN COMICS 2014. Depois tive algumas horas de insônia — que usei para me amassar um pouco mais lendo o Tumblr e o blog de Hart. O trecho do início veio do blog.
Ele e Corman tiveram uma segunda filha em 2013. Ela se chama Molly Rose.
O texto acima é do final de 2014. Saiu no Blog da Companhia (descobri agora que não está mais no ar), depois saiu no meu livro BALÕES DE PENSAMENTO 2.
Dois anos depois, “RL” foi ampliada e virou uma graphic novel com o título completo: ROSALIE LIGHTNING. Eu traduzi para a Nemo e saiu aqui em 2017. Tem uns caquinhos da minha alma naquela tradução.
Em 2018, Hart publicou um livro chamado THE ART OF THE GRAPHIC MEMOIR, uma espécie de manual sobre como fazer autobiografias em HQ.
E este ano, em julho, vai sair uma nova edição de ROSALIE LIGHTNING na gringa, “com prefácio inédito da autora best-seller Lucky Knisley, acompanhado de uma carta de Tom Hart que explica o papel que o livro teve no seu processo de luto e como ele encontrou novos rumos na vida.”
A capa da nova edição
Lembrei de ROSALIE LIGHTNING, lembrei de Tom Hart, lembrei desse texto e lembrei de um outro quadrinho, mas não por causa de nada acima. Lembrei porque acabei de ler WE ALL WISH FOR DEADLY FORCE, de Leela Corman, a mãe de Rosalie e esposa de Hart. Saiu em 2016, o mesmo ano do livro do marido. Não foi tão falado.
Corman aparece em ROSALIE. Mas já me perguntaram: como ela também é autora de quadrinhos, ela também trabalhou a perda da filha em quadrinhos?
WE ALL WISH FOR DEADLY FORCE é uma coleção de HQs curtinhas. Acho que nenhuma chega a dez páginas. Tem as investigações de Corman sobre as origens de sua família entre os judeus da Europa, suas experiências com a dança do ventre e uma reportagem brutal sobre a cultura do estupro no Egito a partir da conversa com uma dançarina de Nova York que foi morar no Cairo.
E sim, tem uma história de oito páginas em que ela trata de Rosalie e de como funciona o transtorno de estresse pós-traumático. Chama-se “The Wound That Never Heals” (a ferida que nunca sara). Tem momentos entrecortados e diagramas para tentar colocar você na cabeça de quem carrega um trauma.
A coleção ainda tem umas ilustrações e estudos para histórias que parece que não foram para a frente. Também em torno da filha falecida.
Mas eu estranhei que não está na coleção uma outra HQ de Leela Corman, também sobre Rosalie, que eu li na época em que estava traduzindo ROSALIE LIGHTNING e que lembrei lendo WE ALL WISH FOR DEADLY FORCE. Essa outra HQ me deu um aperto tão forte quanto toda a graphic novel do marido. Mas ela tem só três páginas: “The Fuck You Forest”, que saiu no Study Group Comics.
É nela que Corman retrata uma sensação ímpar depois que você perde alguém muito importante: parece que a natureza, o mundo, mandou você se foder.
É um fluxo de consciência, que não tem um final muito claro. Isso parece proposital: essa raiva nunca passa, você nunca sai da floresta. Ou, como ela explica em “The Wound That Never Heals”, o trauma é um filme que está sempre rodando na sua cabeça em paralelo com o agora. Você está aqui, mas ainda está na floresta.
Abaixo, “The Fuck You Forest” com um esboço de tradução. Sem as partes óbvias.
Alerta para todos os gatilhos.
Depois que ela morreu, eu encontrava suas roupas em qualquer lugar.
No hospital, nos levaram para uma salinha que tinha uma borboleta na porta.
Você sabe que se fodeu quando te botam numa salinha.
Usei o mesmo moletom no dia que ela nasceu e no dia que ela morreu.
Não consigo mais vestir e não consigo jogar fora.
Você nunca vai saber o que eu vi.
Um ano depois, sem querer, descobri que sei misturar tinta até ficar exatamente cor de cadáver.
No dia seguinte, apareceu um detetive que me fez encenar aquela manhã com uma boneca.
Do instante em que eu a encontrei até chegarem os socorristas.
Você procura ali alguma redenção.
A calcinha da boneca estava arriada. Não esqueço desse detalhe.
Descobri que, quando você espalha cinzas da pessoa, tem pedacinhos do crânio e dos dentes.
Passei semanas comendo só carne mal passada, quase crua.
Fim
Leela Corman e Tom Hart em 2011, daqui
Tom Hart e Molly Rose, 2013, daqui.
Rosalie Lightning, daqui
Não sei se alguém lê a virapágina na ordem. Eu escrevo mais ou menos na ordem e, depois dessa primeira parte, eu preciso de um respiro. Talvez você também precise.
Então, tome páginas viradas.
“Sete Coisas que David Lynch me Ensinou”, de Jeff Lemire, que o Carlos Bertazzo, vulgo Charlinho Xavier, traduziu aqui:
Uma das últimas páginas de MORTE E VIDA SEVERINA, na adaptação que Odyr fez de João Cabral de Melo Neto: “ela, a vida, a respondeu com sua presença viva”.
E um Wolverine de cueca e meia passando roupa. Pela Tess Fowler, daqui:
Respirou? Eu também. Em frente.
Obrigado a todos os colaboradores da virapágina - os novos, os que voltaram e aos de sempre - que se interessaram pelo sorteio de RASL, de Jeff Smith. É a primeira promoção da parceria entre a virapágina e a editora Todavia. Todos os detalhes aqui.
Quem vai receber um exemplar de RASL é: Rebecca Riga.
Obrigado, Rebecca! Já entrei em contato por e-mail para pegar seus dados. RASL sai na semana que vem!
A todos os colaboradores: vocês já estão concorrendo aos próximos sorteiros. Na semana que vem, vou fazer o mesmo sorteio que fiz na virapágina 080: um dos colaboradores vai poder escolher uma entre três ou quatro das minhas traduções. Acho que ROSALIE LIGHTNING vai ser uma das opções.
E, no fim de abril, teremos mais um sorteio de quadrinho da Todavia. Divulgo o título em breve. Se você é colaborador, você já está concorrendo ao próximo e a todos os sorteios até o final de 2025!
Lembro que estão abertas as inscrições para minha nova turma do CURSO PRÁTICO DE TRADUÇÃO DE LIVROS - INGLÊS-PORTUGUÊS na LabPub.
É minha décima-primeira turma! Cinco anos de curso!
Começa em 3 de junho. São 10 aulas, sempre nas noites de terça e quinta-feira. E muita prática de tradução, entre uma aula e outra. É mão na massa!
Tem preço especial com desconto até 31 de março. Todos os detalhes aqui.
Os links abaixo são de trabalhos meus que foram lançados há pouco tempo ou que serão lançados em breve. Comprar pelos links da Amazon me rende uns caraminguás. Se puder, use os links. As datas podem mudar a qualquer momento e eu não tenho nada a ver com isso.
agora, no catarse:
HAPPY ENDINGS, Lucie Bryon, risco
(você pode apoiar a campanha comprando HAPPY ENDINGS com outras traduções minhas para a Risco, como NOVEMBRO, LADRAS, ÔNIBUS e FICCIONÁRIO)
em março
A BATATA FOLGADA, Jory John e Pete Oswald, harperkids
SONIC VOL. 13: A BATALHA PELO IMPÉRIO, Ian Flynn, Adam Bryce Thomas e vários, geektopia
CONAN, O BÁRBARO 6, Jim Zub e Roberto de la Torre, panini
CONAN, O BÁRBARO 7, Jim Zub e Doug Braithwaite, panini
CONAN, O BÁRBARO: A ERA CLÁSSICA vol. 8, James Owsley, Val Semeiks, Geof Isherwood e outros, panini
A ESPADA SELVAGEM DE CONAN 2, Jim Zub, Richard Case, Patrick Zircher, panini
STRANGER THINGS: ESPECIAL DE FÉRIAS, vários autores, panini
ZDM: EDIÇÃO DE LUXO VOL. 3, Brian Wood, Riccardo Burchielli, Kristian Donaldson, Nikki Cook, Ryan Kelly, panini (republicação - traduzi algumas histórias)
VAMPIRO AMERICANO: EDIÇÃO DE LUXO VOL. 1, Scott Snyder, Rafael Albuquerque, Stephen King, Roger Cruz, Sean Murphy, panini (reimpressão)
Acabou de chegar na minha mão A BATATA FOLGADA, de Jory John e Pete Oswald. Estava ansioso para ver o resultado, porque tem umas decisões de tradução meio malucas e queria saber o que a editora aprovou e aproveitou. Ainda vai rolar uma virapágina sobre esse trabalho.
A BATATA FOLGADA [amazon]
em abril
RASL, Jeff Smith, todavia
FICIONÁRIO, Horacio Altuna, risco
LÚCIFER: EDIÇÃO DE LUXO VOL. 5, Mike Carey, Peter Gross, Ryan Kelly, Colleen Doran, panini
CONAN, O BÁRBARO: A ERA CLÁSSICA VOL. 9, Val Semeiks, Michael Higgins, Ron Lim e outros, panini
STRANGER THINGS: CONTOS DE HAWKINS, Jody Houser, Caio Filipe, Sunando C, Giorgia Gio Sposito, Nil Vendrell, Dan Jackson, Nate Piekos, panini
SONIC VOL. 14: SOBRECARGA, Evan Stanley, Adam Bryce Thomas, Natalie Haines, geektopia
em maio
O UNIVERSO DE SANDMAN: GAROTOS DETETIVES MORTOS, Pornsak Pichetshote, Jeff Stokely, Craif Taillefer, Javier Rodríguez, Miquel Muerto, panini
CONAN, O BÁRBARO 8, Jim Zub e Doug Braithwaite, panini
OS INVISÍVEIS: EDIÇÃO DE LUXO VOL. 4, Grant Morrison e grande companhia, panini (tradução revisada)
em junho
SAPIENS VOL. 3: OS MESTRES DA HISTÓRIA, Yuval Harari, David Vandermeulen e Daniel Casanave, quadrinhos na cia.
em julho
GUERRA EM GAZA, Joe Sacco, quadrinhos na cia.
ainda este ano
ESTÁ TUDO BEM VOL. 2, Mike Birchall, suma
GIBI S.A., Shawna Kidman, veneta
SONIC vol. 15, Ian Flynn, Adam Bryce Thomas e vários, geektopia
O ESPELHO DOS SONHOS, Paul Kirchner
ÔNIBUS 2, Paul Kirchner
TOTEM, Laura Pérez, nversos
LIMBO, Deb JJ Lee, nversos
vem aí
HOW TO e WHAT IF 2, Randall Munroe, companhia das letras
KRAZY & IGNATZ VOL. 2: 1919-1921, George Herriman, skript
FEEDING GHOSTS, Tessa Hulls, quadrinhos na cia.
mais BONE de Jeff Smith (e amigos), todavia
ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS e ATRAVÉS DO ESPELHO, Lewis Carroll
+ Adrian Tomine, Dan Clowes, Shaun Tan, Will Eisner, James Tynion IV
+ Gato Pete, Lore Olympus, Conan, Kull
etc. etc. etc.
Todas as minhas traduções: ericoassis.com.br
Tive um avanço que me surpreendeu esta semana em CRUMB: A CARTOONIST’S LIFE: 104 laudas na minha revisão lenta e carregada de pesquisa. Consigo enxergar o final.
A tradução vai ficar pronta mais ou menos quando o livro sair na gringa - a previsão lá é 15 de abril. Já começaram as resenhas importantes: essa semana li uma na Harper’s.
Crumb ia fazer uma turnê pelos Estados Unidos (ele mora na França) para divulgar o livro com o autor Dan Nadel, mas está cancelando todas as participações - fora a de Nova York, até o momento, no dia 15. Justificou pro questões de saúde. Que o velhinho esteja bem e só tenha repensado essa ideia de ver um monte de gente, pegar germes, aguentar trumpista etc.
Acabei a primeira fase da tradução do novo omnibus do Conan. Faltavam 118 páginas. Já estava revisando em paralelo para entregar em prestações, e esta semana revisei 224. Falta metade do busão para a semana que vem.
Já terminei a primeira fase da tradução de O ESPELHO DOS SONHOS no início da semana. Hora de retomar para a primeira revisão. Vai ser agora à tarde.
Comecei a traduzir WILL EISNER: A COMICS BIOGRAPHY. Foram 151 páginas, metade do livro. Este é um daqueles privilégios iguais ao Crumb: o quadrinho só sai na gringa em julho.
Escrevi o prefácio para um quadrinho brasileiro. Vou deixar os autores anunciarem antes de comentar aqui.
E entraram mais dois projetos de tradução para abril.
Teve um 2Q News onde o Vinicius pulou minha piada de tiozão sobre a A MORTE DE SUPERMAN EDIÇÃO ABSOLUTA que vem dentro de uma lápide: “Imagina que isso chega na tua casa, seu marido ou sua esposa vê o quanto custou. Vai servir tanto de arma do crime quanto para marcar onde você for enterrado.”
E teve dois Lançamentos da Semana:
No domingo tem Notas dos Tradutores novo. Com um entrevistado!
E acabou a semana. E essa nius.
O que você acha de apoiar a virapágina para ela continuar saindo toda semana?
Custa só R$ 16 por mês ou R$ 160 por ano.
E já ouviu falar dos sorteios para quem colabora com uma assinatura paga? Todo mês, uma tradução minha para os colaboradores! Teve sorteio na edição 80.
E mais: na parceria todavia + virapágina, você pode ganhar um quadrinho da Todavia todo mês. Mais detalhes nessa edição extra.
Você também pode dar uma assinatura virapágina de presente a quem você acha que vai gostar:
Meu nome é Érico Assis. Sou jornalista e tradutor. Escrevo profissionalmente sobre quadrinhos desde 2000, traduzo profissionalmente desde 2009. Sou um dos criadores do podcast Notas dos Tradutores, colaboro com o canal de YouTube 2Quadrinhos e com o programa Brasil em Quadrinhos do Ministério das Relações Exteriores. Dou cursos de tradução na LabPub. E escrevo esta nius.
Publiquei dois livros: BALÕES DE PENSAMENTO 1 e 2, disponíveis em formato digital e físico na Amazon.
Tem mais informações no meu website ericoassis.com.br.
Se gostou da edição, por favor, compartilhe. Encaminhe o e-mail ou espalhe o link por aí.
E que você vire ótimas páginas até a semana que vem.





















![[Tirinha com a silhueta do cineasta à frente de um mosaico circular de referências à sua obra. A última frase está propositalmente no rosto da silhueta.]
7 COISAS QUE EU APRENDI COM DAVID LYNCH por Jeff Lemire
1. Ideias são como peixes. Quanto mais fundo você mergulha, maiores ficam.
2. Existe beleza na escuridão.
3. Existe escuridão na beleza.
4. Todos os dias, um vez por dia, se dê um presente...
5. Às vezes, a jornada pode ser mais importante do que o destino.
6. As perguntas podem nos ensinar mais do que a respostas.
7. Preste atenção na rosquinha, não no buraco. [Tirinha com a silhueta do cineasta à frente de um mosaico circular de referências à sua obra. A última frase está propositalmente no rosto da silhueta.]
7 COISAS QUE EU APRENDI COM DAVID LYNCH por Jeff Lemire
1. Ideias são como peixes. Quanto mais fundo você mergulha, maiores ficam.
2. Existe beleza na escuridão.
3. Existe escuridão na beleza.
4. Todos os dias, um vez por dia, se dê um presente...
5. Às vezes, a jornada pode ser mais importante do que o destino.
6. As perguntas podem nos ensinar mais do que a respostas.
7. Preste atenção na rosquinha, não no buraco.](https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!skoW!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F65806bb2-2fed-4599-bca8-7022e324ef62_2000x1314.jpeg)
















Tenho esse quadrinho e não li. A lágrima escorreu aqui.
Comprei ele 3 meses depois que Camila nasceu.
Quando eu li sua resenha pela primeira vez eu ainda não era pai, mas minha companheira já estava grávida. Comprei Balões de Pensamento 2 e quis comprar várias obras, sendo a que mais me interessou Rosalie Lightning. Por fim, não comprei nenhuma: pensei que seria mais sensato não gastar dinheiro "à toa" por enquanto. Os gastos com a gravidez e com a futura criança não permitiam "luxos".
Lembro de ler o texto e pensar que a Rosalie seria minha filha, o que torcia o meu peito como se ele fosse um pano velho e apodrecido. Meu Vizinho Totoro é meu filme favorito, um posto que ocupa desde que o assisti pela primeira vez quase vinte anos atrás. Foi o único filme que me fez chorar de felicidade - naquela cena do final em que encontram a Mei e saem viajando e deixam o milho do lado da janela da mãe delas no hospital. Eu quase nunca choro com filmes, mas assisti os créditos sem conseguir enxergar a tela direito de tantas lágrimas, e lembro de pensar que a música de encerramento era a coisa mais delicada do mundo.
Eu já tinha pensando na minha filha e em Meu Vizinho Totoro. Caso gostasse, eu não a deixaria assistir o filme infinitas vezes. Para mim, o melhor jeito de fazer ela amar o filme é fazendo ela amar o que o filme ama: a natureza, a vida simples, a própria infância. Que assistiríamos Meu Vizinho Totoro um dia, casualmente, mas que eu a levaria o máximo que conseguisse para a roça da minha tia, para subir serras e conhecer cachoeiras e ver a beleza que se esconde à plena vista. É o meu catar bolotas, cada um tem o seu. Ela ainda não assistiu ao filme, mas gosta muito de sentar debaixo de árvores e brincar de rasgar folhas.
Já que não havia visto as imagens do quadrinho, meu choque com sua newsletter foi grande. A Rosalie é, realmente, minha filha. Loirinha e atarracada (eu a chamo de Batatinha), com um cabelo na altura do ombro e a barriguinha frequentemente de fora das blusinhas. Se eu mostrasse a imagem dela para alguém e falasse que era um desenho da minha filha, ninguém duvidaria.
Elas são parecidas até a nível fotográfico. Vou colocar um link de uma foto da minha filha aqui. Apagarei depois já que, infelizmente, a internet não é um lugar seguro para crianças - talvez nem para adultos.
https://drive.google.com/file/d/1KPi10vWOhcl8XZ4UBH1l45j9rPqElb6X/view?usp=sharing
A similaridade da minha filha é uma das respostas para a validade da crítica. A Rosalie já era minha filha antes da minha filha nascer, e continua sendo depois que minha filha nasceu. Continuaria sendo minha filha se minha filha fosse um filho, se fosse de outra etnia ou odiasse Meu Vizinho Totoro. Continuaria sendo se eu não tivesse filha. A Rosalie e minha filha se distinguem em algo muito importante, crucial, mas que não me impede de sentir parte da dor dos pais. Eu sinto pois Rosalie é Ana Teresa e eu sou Hart e eu sou Corman e eles são, também, meus pais. A crítica é uma criação tanto quanto a tradução, e como na tradução a criação e a subjetividade afloram no caminho pelo qual a obra (texto de partida) chega ao leitor (texto de chegada) através da crítica (tradução). Assim como você escolhe suas palavras e faz dos textos que traduzem seus, na crítica você escolhe suas palavras e faz do quadrinho que eu leio seu, também. Eu vou comprar Rosalie e o lerei com meus olhos mas o lerei também, em parte, com seus olhos. Tanto com seus olhos de crítico quanto com seus olhos de tradutor.
Muito obrigado por sempre me lembrar que quadrinhos valem a pena.
Abração.