094: ENCARGOS DESGASTANTES
de alan moore para os tradutores | sorteio | herói | dindim | minha semana | páginas viradas
Alan Moore por Frank Quitely (daqui)
Escritores e escritoras não escrevem pensando nos seus tradutores e suas tradutoras. Nem deviam.
Já é trabalho suficiente para o bom escrevinhador e a boa escrevinhadora encaixarem uma palavra depois da outra e alcançarem a melíflua mistura de milagres musicais na língua que dominam. Nem o autor mais comercial deve pensar em como suas frases ficariam no mandarim. Ou o Dan Brown escreve matutando como vai soar para 400 milhões de chineses? Nem ele, aposto. Pois também teria que pensar nos leitores do Brasil, da Finlândia, do Japão e dos outros 40 idiomas. Os tradutores que se virem.
Mas, às vezes, um autor ou uma autora lembra que seus livros, filmes ou quadrinhos são traduzidos e lidos por gente de idiomas dos quais eles não conhecem uma palavra sequer. Até os autores e autoras angloparlantes, lá daquelas terras onde eles leem pouca tradução e, consequentemente, pouco pensam em tradução
E, às vezes, quem lembra de nós, tradutores e tradutoras, é o Alan Moore.
Ou alguém lembra ele. No caso, o brasileiro Flavio Pessanha perguntou direto ao sexagenário nas entrevistas anuais que o autor concede ao coletivo The Really Very Serious Alan Moore Scholars’ Group (O Grupo Sério-Seríssimo-Sério-Mesmo de Estudiosos de Alan Moore). Flavio queria saber o que Moore pensa das dificuldades que encara quem traduz um colosso como JERUSALEM, seu livro de 1266 páginas com um capítulo em verso, outro que evoca Samuel Beckett e um que reproduz a confusão mental de Lucia Joyce no estilo do papai James em FINNEGANS WAKE.
Alan Moore por Zander Cannon (daqui)
Moore coçou a barba quinquagenária e rabiscou uma notinha de alento a todos os tradutores e todas as tradutoras:
Sempre fico impressionado/perplexo com a quantidade de trabalho que deve conter a tradução do que eu escrevo, para o idioma que seja. No mínimo porque o uso que faço da língua inglesa costuma implicar em grandes doses de peculiaridades idiomáticas que, talvez, não sejam traduzíveis com perfeição. E não é incomum que estas obras incluam experimentos linguísticos como “O Porco de Hog”, em VOZ DO FOGO, e “Round the Bend”, em JERUSALÉM. Como já disse, fico impressionado que alguém sequer tente traduzi-las e não é um encargo que eu inveje.
Suponho que o que eu diria a qualquer tradutor ou tradutora é que, se você se esforçar ao máximo para entender quais eram as minhas intenções por trás de trechos difíceis e, a partir disso, expressar essas intenções da forma que lhe parecer mais forte e significativa, isso é tudo que qualquer autor poderia, dentro da razoabilidade, pedir de seus tradutores.
Quando escrevi o original, minha base foi a confiança que deposito em mim e nos meus processos, tal como deve fazer todo autor. Quando reinventa este material em outra língua, o tradutor ou tradutora torna-se, na prática, autor ou autora de uma nova obra e deveria igualmente depositar confiança em si e nos seus processos. Ao agir assim, a pessoa está servindo à obra dentro das capacidades que tem – o que resume tudo que me interessava no trabalho original. Além disso, está transmitindo o novo texto direto do seu coração, do mesmo modo como eu queria transmiti-lo no original.
Acrescento: talvez seja relevante à pessoa que for traduzir uma obra minha que ela divirta-se tanto quanto eu me diverti na composição original. Reconheço que traduzir meus trabalhos pode ser, por vezes, muito, muito complicado, mas espero que o processo tenha um mínimo de gratificação ou recompensa, e que nunca seja um encargo desgastante. Fora isso, continue fazendo o que faz e saiba que tenho apreço profundo por você e pelo seu empenho.
Tendo traduzido alguns textos curtos e menores do sr. Moore, fico grato pela consideração. E queria muito que a mensagem chegasse aos tradutores envolvidos em “encargos desgastantes” (ou não) com o barbudo, como Octavio Carvalho Aragão Jr (PROMETHEA), Hector Lima (PROVIDENCE), Marília Toledo (UM PEQUENO ASSASSINATO), Ludimila Hashimoto (VOZ DO FOGO), Marquito Maia (LOST GIRLS), Fabio Fernandes (A LIGA EXTRAORDINÁRIA), Edu Tanaka (MONSTRO DO PÂNTANO), Jotapê Martins (WATCHMEN, DO INFERNO) e à alma corajosa que encarar JERUSALÉM. Vejam só: ele sabe que a gente existe.
Alan Moore por Eduardo Risso (daqui)
Alan Moore por Giacomo Putzu (daqui)
O texto acima é antigo - saiu no Blog da Companhia em novembro de 2017, perto do aniversário do barbudão. Ando pensando muito na mensagem de Moore devido a um “encargo desgastante” (ou não) do qual ainda não posso falar mais, mas que é o motivo pelo qual hoje não tive cabeça para bolar um texto novo nem fazer o que eu tinha planejado.
Só traduzi quadrinhos menores de Moore, e dou valor a cada página: SKIZZ, D.R. & QUINCH (os dois em CHOQUES ALIENÍGENAS), CAPITÃO BRITÂNIA, sua pequena contribuição ao MONSTRO da 2000AD e uma história da Vampirella. Depois de publicar o texto acima, também traduzi uma boa parte de CINEMA PURGATORIO, todo MAXWELL O GATO MÁGICO e um roteiro que saiu em MONSTRO DO PÂNTANO: EDIÇÃO ABSOLUTA VOL. 2.
Também traduzi a biografia do homem, MAGO DAS PALAVRAS, escrita por Lance Parkin e que me levou a traduzir vários trechinhos de Moore. Depois participei de um livrinho muito legal, ALAN MOORE E A HISTÓRIA, no qual recauchutei um texto antigo que escrevi sobre o Moore.
E não vamos esquecer de:
Outros tradutores e tradutoras desgastaram dedos, mente e coração desde 2017. Pedro Bouça (CHOQUES FUTURISTAS), Paulo Cecconi (CINEMA PURGATORIO), Leandro Luigi del Manto (BOJEFFRIES: A SAGA), Guilherme Braga (NEONOMICON), Mario Luiz C. Barroso (WILDC.A.T.S), Mauricio Muniz (SPAWN), Carlos Alberto Bárbaro (SPAWN), Adriano Scandolara (ILUMINAÇÕES e O GRANDE DURANTE) e, é claro, Marina Della Valle, a alma de extrema coragem que encarou o monumento JERUSALÉM.
(Marina transformou “Round the Bend” em “Dobrando a Esquina”: De esperta, Lucia se lavanta como na ser da luz. Elum enigma, dez certo, como aformariam as enfernazis e os d’atores, mas nuncuma pá lavra-escruzeada esses dias, ao de pender da mendicação e do progresso dos remegrinos. Seu despetardo torpor é uma Primavera, um livro murmurofegante que gorgoleja entre os solos do sono, brilhescancarando e faiscagulhando para encarar o solda amanhã…)
Saímos desses encargos com um pouco menos de dedos, um pouco menos de mente e um pouco menos de coração. Não posso dizer por vocês, mas eu digo que também saio um tradutor melhor.
Na edição passada da virapágina, eu devia ter sorteado uma tradução minha entre os assinantes colaboradores, como faço todo início de mês. É o sorteio viramês virapágina, já tradicional desta newsletter.
E eu esqueci.
Então, vamos de sorteio viramês na edição de hoje. O colaborador ou a colaboradora cujo e-mail for escolhido aleatoriamente pelo sorteio.com vai escolher uma das minhas traduções abaixo e receber no endereço que quiser (desde que seja no Brasil):
O vencedor deste mês é Adail Zerio Junior, que assina a virapágina desde novembro de 2024! Obrigado e parabéns, Adail. Entro em contato logo depois que essa edição sair.
No fim de junho tem mais um sorteio só para colaboradores: o da parceria todavia + virapágina. O sorteado ou sorteada vai levar MONSTROS, de Barry Windsor-Smith, traduzido por este que vos fala. Vai ter uma edição da virapágina sobre MONSTROS ainda este mês…
E, na primeira newsletter de julho, tem mais um sorteio viramês virapágina.
Se interessou e ainda não é colaborador? Seja colaborador, ué:
Não sei se é uma confissão, porque é uma coisa esperada de um nerd quarentão que escreve sobre cultura pop. Mas confesso: sou cria da revista HERÓI.
Foi esquisito encontrar esse objeto na banca em 1994. Eu nem curtia Cavaleiros do Zodíaco - só fui assistir nas férias na casa dos primos, uns meses depois. Mas a revista prometia falar de gibi. Não existia revistas que falavam de gibi. Só as importadas e caras. Essa era brasileira, e custava quase a mesma coisa que um gibi.
Tenho a coleção completa, ou quase. Cento e sei lá quantas edições. Quando ela estava no final e se chamava HERÓI+, colaborei com uns textículos (eram pequeninhos mesmo). Uma conquista heroica no meu início da vida de jornalista, para a qual a HERÓI ajudou a empurrar.
A HERÓI está voltando. Mais ou menos. Vai ter uma Edição Comemorativa de 30 Anos, inédita; o relançamento do livro HERÓI: A HISTÓRIA DA REVISTA QUE INSPIROU UMA GERAÇÃO; e um HERÓI OMNIBUS, com a reprodução das dez primeiras edições (também em versão com as 10 edições avulsas dentro de uma caixa).
É um projeto no Catarse. Já bateu meta e tudo que precisa para sair. Nesse momento, está perto dos 200% da meta. A cada nova meta que bater, vai ganhar mais brindes e novidades para todo mundo que colaborar.
Dá para comprar só Edição Comemorativa, só livro, só Omnibus, só caixa, tudo junto e outras combinações. Tudo fica pronto em setembro.
É uma chance de ver como era a cultura pop naqueles tempos de internet prrr-poorr-telein-telein-telein. Precursora de Omeletes, youtubers, tiktokers e do que resta de jornalismo de cultura pop.
Ou, no meu caso, o de ler essa promessa para a Edição Comemorativa: “A pauta tem um eixo que une as matérias. É uma viagem no tempo, mostrando quanto mudou o universo geek de 1995 a 2025, e revelando origens e bastidores dessa grande transformação.” Estou curioso.
Os links abaixo são de trabalhos meus que foram lançados há pouco tempo ou que serão lançados em breve. Comprar pelos links da Amazon me rende uns caraminguás. Se puder, use os links. As datas podem mudar a qualquer momento e eu não tenho nada a ver com isso.
agora, no Catarse:
WILL EISNER: UMA BIOGRAFIA EM QUADRINHOS: de Stephen Weiner e Dan Mazur, a biografia de um mestre dos quadrinhos - em quadrinhos. Lançamento simultâneo EUA/Brasil. Dá para comprar em combo com A ESTRANHA MORTE DE ALEX RAYMOND, que eu também traduzi.
A campanha vai até 20/7ÔNIBUS 2 + O ESPELHO DOS SONHOS: dois trabalhos de Paul Kirchner, um deles em lançamento simultâneo Europa/Brasil, um exclusivo do Brasil. Dá para comprar separado, junto ou em combo com o primeiro ÔNIBUS. E tem um brinde exclusivo para quem apoia no Catarse: o MICRO-ÔNIBUS. Traduzi tudo para a Risco.
A campanha vai até 7/7.
em junho
SAPIENS VOL. 3: OS MESTRES DA HISTÓRIA, Yuval Harari, David Vandermeulen e Daniel Casanave, quadrinhos na cia.
IRMÃOS MENÉNDEZ: SANGUE DE FAMÍLIA, Robert Rand, darkside
MONSTROS DA UNIVERSAL: DRÁCULA VIVE, James Tynion IV, Martin Simmonds, darkside
MONSTROS DA UNIVERSAL: O MONSTRO DA LAGOA NEGRA, Ram V, Dan Watters, Matthew Roberts, Trish Mulvihill, darkside
MONSTROS DA UNIVERSAL: FRANKENSTEIN, Michael Walsh, Toni Marie Griffin, darkside
CONAN, O BÁRBARO: A ERA CLÁSSICA VOL. 9, Val Semeiks, Michael Higgins, Ron Lim e outros, panini
O GATO PETE VIAJA NA MAIONESE, de Kimberly e James Dean, harpercollins brasil
em julho
GUERRA EM GAZA, Joe Sacco, quadrinhos na cia.
em agosto
CONAN, O BÁRBARO 9, Jim Zub, Danica Brine, panini
A ESPADA SELVAGEM DE CONAN 3, Cary Nord, Frank Tieri e outros, panini
ainda este ano (já anunciados pelas editoras)
ESTÁ TUDO BEM VOL. 2, Mike Birchall, suma
GIBI S.A., Shawna Kidman, veneta
TOTEM, Laura Pérez, nversos
LIMBO, Deb JJ Lee, nversos
CRUMB: A CARTOONIST’S LIFE, dan nadel, todavia
vem aí
HOW TO e WHAT IF 2, Randall Munroe, companhia das letras
KRAZY & IGNATZ VOL. 2: 1919-1921, George Herriman, skript
FEEDING GHOSTS (a vencedora do Pulitzer!), Tessa Hulls, quadrinhos na cia.
mais BONE de Jeff Smith (e amigos), todavia
ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS e ATRAVÉS DO ESPELHO, Lewis Carroll
+ Adrian Tomine, Dan Clowes, Shaun Tan, Will Eisner, Rachel Pollack
+ Gato Pete, Lore Olympus, Conan, Kull, Primeiro Gato no Espaço
etc. etc. etc.
Todas as minhas traduções: ericoassis.com.br
Foi uma semana dedicada ao Encargo Desgastante - que já foi chamado neste espaço de PROJETO PORVIR e Tradução Doida de 2025. O Encargo estava dormente há quase um mês, esperando respostas do editor sobre umas dúvidas. As respostas vieram e o troço tem que deslanchar. Saíram 98 páginas de revisão. Faltam umas 300 até o fim do mês.
Do PROJETO GOLFINHOS2, saíram 79 páginas novas e revisei 190 - que já foram entregues porque é daqueles projetos para entregar às prestações. Ainda tem 450 páginas pela frente, entre as que eu nem comecei e as revisões.
Saíram mais 27 laudas de AGATHA11.
E dei mais uns toques no PROJETO FILÉ. Ansioso pra falar desse.
Tenho duas traduções paradas, às quais preciso voltar na semana que vem. Editores que estão lendo isso aqui: as duas estão no prazo, não se preocupem.
Ah, sim! Teve a segunda semana do Curso Prático de Tradução de Livros Inglês-Português na LabPub. Isso toma um tempo federal e eu esqueço de contar que tira o tempo do resto.
No 2Quadrinhos, saiu um Lançamentos da Semana com Crepax, Goddamn Batman e GI Joe:
E um 2Q News com uma exclusiva importante que eu cavei com o senhor Mike Deodato:
E aí a semana acabou. Se a semana passada teve três dias, esta teve dois.
De Kristian Hammerstad, na resenha de O ESQUEMA FENÍCIO da New Yorker, aqui.
Assisti o filme no domingo. No cinema! Não assistia um Wes Anderson no cinema desde VIAGEM A DARJEELING, em 2000 e bolinha. É uma experiência.
Foi uma experiência melhor porque foi a primeira vez que minha filha viu um Wes Anderson. Ela riu muito e no final disse mais ou menos assim:
“O. Que. Foi. Isso.”
Anos, muitos anos atrás, quando fui ver OS EXCÊNTRICOS TENENBAUMS pela segunda vez no cinema, convenci minha mãe a ir junto. Ela disse:
“Que. Gente. Doida.”
Te amo, minha filha. Te amo, mãe. Um abraço, Wesley.
Também:
Every Wes Anderson Movie, Explained by Wes Anderson [youtube]
Neal Adams, em STRANGE ADVENTURES n. 216 (1969). Vi aqui.
Uma entrevista que dei ao Leonardo Tissot na Scream & Yell há milhões de anos (2021) reapareceu porque a revista citou um trecho no BlueSky… e rendeu um rebuliço curioso, tanto de gente querendo me xingar quanto dos que querem me defender.
Peço desculpas a quem tiver que ver minha foto repetida, repetida, repetida, mas a discussão é legal.
E olha só: meu exemplo tem a ver com nosso barbudão desgastante Alan Moore.
[bluesky] [scream & yell]
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Custa só R$ 16 por mês ou R$ 160 por ano.
E já ouviu falar dos sorteios para quem colabora com uma assinatura paga? Todo início de mês, uma tradução minha vai para os colaboradores! Teve sorteios na edição 80, na edição 84, na edição 88 e nesta.
E mais: com a parceria todavia + virapágina, você pode ganhar um quadrinho da Todavia todo fim de mês. Mais detalhes nessa edição extra.
Você também pode dar uma assinatura virapágina de presente para quem você acha que vai gostar:
Meu nome é Érico Assis. Sou jornalista e tradutor. Escrevo profissionalmente sobre quadrinhos desde 2000, traduzo profissionalmente desde 2009. Sou um dos criadores do podcast Notas dos Tradutores, colaboro com o canal de YouTube 2Quadrinhos e com o programa Brasil em Quadrinhos do Ministério das Relações Exteriores. Dou cursos de tradução na LabPub. E escrevo esta newsletter.
Publiquei dois livros: BALÕES DE PENSAMENTO 1 e 2, disponíveis em formato digital e físico na Amazon.
Tem mais informações no meu website ericoassis.com.br.
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E que você vire ótimas páginas até a semana que vem.





























opa! Acredita que estava relendo esse seu post na Cia ontem? (sim, finalmente tentando rabiscar um artigo acadêmico sobre a empreitada)
Tô atrasado nas minhas leituras de newsletters por conta dos dias envolvido na Bienal do Rio, e senti muita falta da sua, Érico. Pouco a pouco vou me atualizando. Não sou de comentar aqui, mas gosto demais da forma como vc escreve e monta a sua news. Forte abraço pra ti!