106: JOÃO BARBOSA E XERÊTA
peanuts nos jornais dos anos 60 | fim
Estou viajando, por isso a cartinha de hoje é um texto de gaveta. É um dos que eu escrevi para a COLEÇÃO SNOOPY, CHARLIE BROWN & FRIENDS, da editora Planeta DeAgostini. Revisei, mudei algumas coisas e fiz uns acréscimos. Quem acompanha a virapágina sabe que já recorri a esses textos em outras ocasiões…
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Já aviso que a da próxima semana será a sequência deste texto.
João Barbosa e Xerêta
Quando Peanuts chegou no Brasil, nos anos 1960 e 1970
O anúncio é quarta capa de uma coleção de bolso da tira B.C., de Johnny Hart, publicação da editora carioca Artenova. Aparecem Charlie Brown, Lucy, Linus e Snoopy. É uma pérola da publicidade dos anos 1970.
A revista é de 1973. Provavelmente você teria que ter vivido aquela época para “morar” no que o anúncio quer dizer com “transas” e “cuca rateando”. Dá a impressão de que o papo da turma de Charlie Brown já foi bem diferente do que é hoje.
Não só o papo, mas a aparência. No anúncio, Lucy está de vestido vermelho, não roxo. Linus usa uma camiseta azul e branca, não a vermelha com listras. E a tradicional camiseta amarela do ziguezague de Charlie Brown está pintada de verde. Seus sapatos também são verdes.
De certo modo, o papo era outro. Em seus 60 anos de publicação no Brasil, Peanuts passou por vários jornais, várias editoras, vários tipos de publicação – de livrinhos de bolso a edições de luxo – e, a cada casa editorial passou pelas cabeças de diferentes editores e diferentes tradutores. Nestes 60 anos, a tira tentou captar o jeito de falar dos seus avós, dos seus pais e o seu, inserindo as gírias de cada época nos balões de “Carlinhos” – como Charlie Brown já foi chamado – e sua “patota” – um jeito antiquado de falar “turma” que também já se aplicou à galera do “Xerêta” (um certo cachorrinho aí).
Essas variações na tradução, sobretudo nos nomes, também mostram como a relação entre editoras e leitores brasileiros com a língua inglesa mudou ao longo das décadas. Aceitamos cada vez mais termos anglófonos. Se nos anos 1970 era impensável pedir que o leitor daqui lesse “pínats”, hoje é praxe.
Essas mudanças são ditadas pelo mercado, pelos licenciantes, pelo jogo entre cada mídia onde Peanuts aparece – nos jornais, nos livros, na televisão, nos brinquedos, no cinema –, mas principalmente pela evolução natural da língua. O tradutor de Peanuts na década de 1960 não teria como traduzir como o tradutor de Peanuts dos anos 2020. Nem devia.
O que não quer dizer que não houve exageros…
Minduins e pingos de gente
Não há registro exato das primeiras publicações de Peanuts no Brasil. Até onde se sabe, a criação de Charles Schulz chegou aqui em revistas antes de chegar nos jornais. Teria sido nas últimas edições do segundo volume de Capitão Z, da editora Ebal, em 1961.
Foi ali que provavelmente surgiu o “apelido brasileiro” mais famoso de Peanuts: Minduim. O nome aparece com destaque na capa de O Capitão Z 86 e segue nas capas até o final da revista, em junho do mesmo ano, na edição 91.
Era a criação de Charles Schulz, mas os quadrinhos não eram necessariamente de Charles Schulz. A revista não trazia as tiras, e sim as histórias mais compridas de Peanuts, de uma página inteira até oito páginas, que saíram originalmente nos EUA também em revista. As tramas eram diferentes das tiras dos jornais e os roteiros e desenhos geralmente eram de outros autores. Schulz assinava, mas na verdade apenas dava aval a essas HQs.
(A história destes Peanuts versão comic book fica para outro texto.)
Com o fim da Capitão Z, levou quase dois anos para Peanuts voltar a dar as caras no Brasil. E voltou de novo em formato revista, pela editora O Cruzeiro – também da famosa revista jornalística de mesmo nome, que funcionou de 1928 a 1975. Charlie Brown e turma apareceram na revista Pingo de Gente, que era um termo carinhoso para se referir a crianças, mas que também vale como tradução de Peanuts.
Mais uma vez, não eram tiras, mas histórias em quadrinhos compridas da turma. E não só deles: as edições também traziam histórias de Suzi e Marciano – ou Nancy e Sluggo, originalmente – outros personagens de tiras de jornal que pularam para as revistas. Charlie Brown e Snoopy estão em todas as capas, contudo.
Mas a grande curiosidade da Pingo de Gente é que Charlie Brown e Snoopy não tinham esses nomes. O garoto da camiseta com ziguezague chamava-se “João Barbosa”. E, tal como originalmente todos o chamam pelo nome completo - nunca “Charlie”, sempre “Charlie Brown” - Schroeder, Lucy, Linus e outros não o chamam de “João”, e sim de de “João Barbosa”, “João Barbosa”, “João Barbosa”…
Com outro detalhe: Schroeder, Lucy, Linus e Snoopy tampouco atendem por estes nomes. Os irmãos van Pelt ganharam adaptações gráficas: Luci, com “i”, e Lino, com “o”. A pronúncia complicada de Schroeder deu lugar a… “Essenfelder”, nome da marca de pianos mais famosa no Brasil à época.
E o cãozinho do João Barbosa?
Na primeira edição de Pingo de Gente, lemos o dono do bicho dizendo que “Xerêta é um cachorro muito esperto”. Tirando a regra de acentuação antiquada, “xereta” é quase uma tradução literal de “snoopy”. E um nome literalmente bom pra cachorro.
A Pingo de Gente, todavia, durou apenas dez números.
(Corre a informação de que Ziraldo, o famoso Ziraldo Alves Pinto [1932-2024], teria sido o responsável pelo batismo de “Peanuts” como “Minduim”. Ou de “Charlie Brown” como “João Barbosa”. Ou as duas cosias. Tentei confirmar esta informação com o próprio Ziraldo quando escrevi este texto, em 2020, mas não consegui retorno. Sem documentação, fica difícil cravar que é verdade.)
Revolucionando em São Paulo, veraneando no Rio
As tiras de Peanuts chegaram ao Brasil no Jornal da Tarde, de São Paulo, em 1966. Revolucionário para a época, o Jornal da Tarde foi uma aposta do mesmo grupo que publicava (e ainda publica) O Estado de S. Paulo: um diário com linguagem mais informal, diagramação ousada e um estilo de jornalismo baseado no que se fazia de melhor no exterior na época. Uma amostra de fins dos anos 1960, para resumir. Peanuts, revolucionária a seu modo, foi uma das tiras escolhidas para acompanhar o jornal vespertino desde a primeira edição.
A exemplo da revista Capitão Z, o Jornal da Tarde, ou JT, optou por chamar a tira de “Minduim”. É uma tradição que se mantém até hoje, agora que a tira é publicada no jornal O Estado de S. Paulo. Aliás, foi a opção de quase todos os jornais desta época até a criação de Charles Schulz ficar mais conhecida pelo nome de um certo “xereta”…
Normalmente, jornais da mesma cidade não podem publicar a mesma tira. Os licenciantes costumam ter o controle para que isso não aconteça e um jornal concorra com o outro pelo conteúdo diferenciado. Outro jornal paulistano, porém, começou a publicar “Minduim” logo depois do JT.
Em 1967, a Folha de S. Paulo estreou seu Suplemento em Quadrinhos, um encarte semanal com 16 páginas de tiras. Tinha Fantasma, Mandrake, Batman, Flash Gordon, Sobrinhos do Capitão e as tiras dominicais de Charles Schulz, as que o JT não publicava. Elas tinham dois diferenciais: eram maiores, feitas para ocupar meia página de um jornal americano; e coloridas.
De toda forma, a experiência foi curta: o Suplemento durou apenas três edições depois de um teste com a edição número zero.
No Rio de Janeiro, “Minduim” chegou em 1968 no Correio da Manhã. Era creditada a Charles M. “Schultz” – o erro na grafia do sobrenome que muita gente comete, com um “T” que não existe.
É o Correio da Manhã que dá início a uma série de adaptações das falas que segue uma vertente que os tradutores chamam de “domesticação”. Segundo os diálogos, Charlie Brown e turma não só moram no Brasil, mas até na cidade do jornal: Sally diz que vai “veranear fora do Rio”. No original, a tira de 21 de julho de 1967, ela está “going to summer school”.
Dentro do mesmo tema, Snoopy pergunta se Woodstock “vai passar o verão na serra, né?” – adaptação da tira original de 4 de outubro de 1967, em que a pergunta é se o passarinho está “heading south for the winter, eh?”.
Linus declara que sabe o nome de todos os estados dos Estados Unidos na tira original de 17 de julho de 1967, mas Lucy contesta com estados inventados: “What about East Dakota, North Virginia, New Missouri, South Hampshire, West Wisconsin and Old Maine?” No Correio da Manhã de 17 de janeiro de 1968, Lucy pergunta: “E quede [sic] o norte do Paraná, o Triângulo Mineiro, o ABC, a Zona da Mata e Paraíba do Sul?”
Em outro diálogo entre os dois irmãos, Linus entrega seu cobertorzinho a Lucy, cumprindo uma promessa, e declara: “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever.” O tradutor da época teve que se virar com o original de 29 de agosto de 1967: “I hope the A.M.A. appreciates this”, que faz referência à associação nacional dos médicos nos EUA.
Há outras coisas de época, como Charlie Brown escrevendo para seu “Dear Pen-Pal” e este virar “Meu querido chapinha”; beisebol ainda aparecer com a grafia “basebol”; e a contração de “está” levar um apóstrofo: “’tá”. E apesar de a maioria dos nomes de personagens ficarem iguais – inclusive o de Snoopy – a nova personagem Patty Pimentinha (que tinha estreado em 1966) é chamada de “Joana Hortelã” ou “Patty Hortelã”.
A fulaninha de cabelos castanhos
A experiência no Correio da Manhã durou apenas dois anos. Em 1970, Peanuts mudou de endereço no Rio de Janeiro e foi para o jornal chamado O Jornal, da rede Diários Associados. Está na capa da edição de 28 de julho: “Minduim chegou” (ao lado das carpideiras do ditador português António Salazar).
É na publicação de “Minduim” em O Jornal que os fãs de Peanuts mais se divertem com as traduções. As primeiras tiras que saíram no diário trazem um carnaval de soluções de cair o queixo.
Charlie Brown, por exemplo, vira “Carlinhos” e Snoopy é chamado de “Mânhoso”. Linus vira “Lilico” e sua Grande Abóbora é a “Abóbora de Quatro Pernas”. Quando Snoopy se fantasia de Ás Voador da Primeira Guerra, na verdade se torna o “Tremendão da Primeira Grande Guerra”. Franklin, sabe-se lá por que motivo, se apresenta como “Pepino”. Miss Othmar, a professora do colégio, vira “Dona Jururuba”. E a garotinha ruiva, veja só, é a “fulaninha dos cabelos castanhos”.
Os diálogos também são pontilhados por gírias. Os personagens se tratam por “meu chapa” e “minha chapa”. A professora é “fessôra”. Quando Lucy atende na sua banquinha de psiquiatra, a placa diz “A doutôra está [in]”. Linus encontra Snoopy chutando a parede do colégio e pergunta: “Por que não vai dar pontapé na casa do chapéu?” Charlie Brown (ou Carlinhos) manda Snoopy (ou Mânhoso) embora do colégio: “Vá dando nos calos!”
Na primeiríssima “Minduim” em O Jornal, Lucy chega para Linus e pergunta: “Tudo azul, meu chapa?”. Ele responde: “Nerusca (Nerusca!?), estou preocupado paca! Tem um teste amanhã na escola e não sei bulhufas”. A irmã: “Por que não estuda, ‘seu’ bolha?” E ele: “Não adianta! Vou entrar por um cano de fazer gôsto!” A original é de 30 de setembro de 1968.
A tradução chega a ser ofensiva em alguns momentos. Quando Franklin (ou Pepino) pergunta a Lucy se ela vende limonada na banquinha de psiquiatra, a menina retruca: “Tá de porre, meu chapa?”
Quando Carlinhos conta que quer pedir a “fulaninha de cabelos castanhos” em casamento, Lilico solta a pérola: “Tá por fora, Carlinhos! Vai ser cafona assim no inferno!” O original, de 14 de outubro de 1968, não fala nem em casamentos nem tem amigo chamando o amigo de cafona. Muito menos mandando-o para o inferno.
Com o passar dos dias, a tradução de O Jornal – ou o tradutor – muda. “Carlinhos” volta a ser Charlie Brown e as soluções escalafobéticas ficam mais comportadas. O Jornal, porém, só publicaria “Minduim” até 1972.
Um apaixonado
Uma pessoa merece levar todo o crédito pela pesquisa acima sobre jornais e revistas. Ele diz que não é pesquisador, mas este levantamento sobre Peanuts devia valer um diploma de arqueologia.
Renato Félix também diz que não é um supercolecionador, mas tem todos os DVDs de Peanuts que conseguiu encontrar no Brasil, correu atrás das várias dublagens que as animações tiveram na TV brasileira – um dos temas da introdução ao próximo volume desta coleção – e reassiste sempre que pode. Também acompanha as republicações das tiras na última década, como as das editoras L&PM, Conrad e Cosac & Naify. O xodó da sua coleção são os livrinhos e revistas da Artenova, dos anos 1970, e alguns números de Snoopy pela Cedibra, de fins dos anos 1980.
“Aquele primeiro da Cedibra, ainda tenho. É um dos gibis mais antigos que eu mesmo comprei que ainda guardo”, ele me conta. “Aliás, peguei nele outro dia e descobri uma coisa que não lembrava: tinha um espaço de tira que ficou em branco por uma falha qualquer lá e eu preenchi com uma tira que eu mesmo fiz. Registro de pré-adolescente.”
Félix tem 52 anos. Nasceu e passou a infância no Rio de Janeiro, hoje mora em João Pessoa. Foi editor de Cultura do jornal Correio da Paraíba durante dez anos, e atualmente trabalha na Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia escrevendo sobre esses temas. É crítico de cinema e quadrinhos, foi colaborador da Rádio CBN e do site Universo HQ.
Foi em uma das colaborações para o Universo HQ - um episódio do podcast Confins do Universo - que ele produziu este levantamento sobre Peanuts no Brasil, a partir do site da Biblioteca Nacional – que tem o arquivo de alguns jornais brasileiros – e do repositório de informações sobre revistas em quadrinhos nacionais Guia dos Quadrinhos. Ele gentilmente me cedeu o levantamento e as principais descobertas.
Félix sabe exatamente onde começou a paixão por Peanuts. “Lembro bem de assistir aos especiais animados quando começaram a passar no SBT, ali por 1984, que me fizeram amar para valer os personagens. Mas sei que eu já os conhecia quando começaram a ser exibidos no SBT, então certamente os descobri na página de tiras do Jornal do Brasil mais no começo da década.”
Do levantamento acima, o ponto que ele acha mais interessante é a tradução de Peanuts por Minduim. Não só pela adaptação carinhosa do original, mas porque, na visão dele, ela resolveu um dilema de Charles Schulz.
“Schulz não gostava do nome Peanuts porque, entre outras coisas, achava que os leitores iam pensar que ‘Peanuts’ era um dos personagens”, ele me explica. Nas tiras e nas revistas publicadas no Brasil, porém, “acredito que ninguém chamava Charlie Brown de ‘Minduim’. Mesmo assim, os jornais assumiam em suas matérias sobre a tira que ‘Minduim’ era Charlie Brown. Escreviam ‘Charlie Brown (“Minduim”)’ quando citavam o personagem. Ou seja: o medo de Schulz tomando forma e institucionalizado na imprensa.”
Mas o jogo virou algum tempo depois. “Minduim” passou a ser apenas o nome pelo qual Patty Pimentinha chama Charlie Brown. No original, ela é a única que chama o protagonista da tira de “Chuck”.
“A referência mais antiga que tenho para Patty Pimentinha chamando Charlie Brown de ‘Minduim’ é a dublagem da produtora MaGa, para os desenhos no SBT, nos anos 1980”, Félix disse. “O fato é que essa ideia pegou e ‘Minduim’ passou a ser o apelido do Charlie Brown em outras dublagens e passou para os quadrinhos em várias traduções.”
“Assim, o Brasil ‘resolveu’ o dilema de Schulz para o nome da tira”, ele conclui.
(O histórico de Peanuts no Brasil continua na próxima edição.)
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Meu nome é Érico Assis. Sou jornalista e tradutor. Escrevo profissionalmente sobre quadrinhos desde 2000, traduzo profissionalmente desde 2009. Sou um dos criadores do podcast Notas dos Tradutores, colaboro com o canal de YouTube 2Quadrinhos e com o programa Brasil em Quadrinhos do Ministério das Relações Exteriores. Dou cursos de tradução na LabPub. E escrevo esta newsletter.
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E que você vire ótimas páginas até a semana que vem.















































Era do balacobaco.
Com essa história de "domesticação" dos nomes de personagens, lembrei que quando a EBAL trouxe o Super-homem para o Brasil sua identidade secreta era Eduardo Kent, secretamente apaixonado por sua intrépida colega repórter Mirian Lane.