149: HISTÓRICOS
o sophie castille award for comics translation e o troféu angelo agostini para tradutores | meus trabalhos | fim
Essa foto é histórica.
Não só porque eu odeio fotos em que eu apareço e, consequentemente, elas sejam raras. Deviam ser.
O da esquerda sou eu. Pois é.
À direita, minha amiga Dandara Palankof. Ela tem um metro e quatrocentos centímetros.
Nós dois somos tradutores de quadrinhos brasileiros premiados. Por isso que essa foto é histórica.
As fotos são de domingo passado. Quem tirou foi a Marcela, minha melhor pessoa do mundo.
Eu e a Dandara ganhamos os primeiros prêmios para tradutores de quadrinhos na história deste país. Ela ganhou o Troféu Especial - Tradutor do 42º Troféu Angelo Agostini. Eu ganhei o Sophie Castille Award for Comics in Translation, um prêmio internacional que se vinculou ao Troféu Angelo Agostini.
Existem prêmios para várias especialidades profissionais dentro dos quadrinhos. No Brasil, por exemplo, o Troféu Angelo Agostini sempre teve categorias como roteirista, desenhista, colorista etc. Agora tem de editor. O HQ Mix, além dessas, já teve letrista, caricaturista e articulista de quadrinhos, entre outras. Prêmio para quem traduz quadrinhos? Em nenhum deles, nos quase quarenta anos de cada prêmio. No caso do Angelo Agostini, só agora, aos 42 anos. O HQ Mix ainda está devendo a categoria.
É porque antes não existia tradutores e tradutoras de quadrinhos? Olha, eles e elas existem pelo menos desde 1905, da primeira edição de O Tico-Tico que trouxe para cá aquela revolução de virada do século, a das tiras de jornal dos EUA e das revistas ilustradas francesas. Uns noventa anos atrás, quadrinhos alavancaram o que hoje são o Grupo Globo e o Grupo Editorial Record - e foram sobretudo os quadrinhos traduzidos. Alfredo Machado, fundador da Record, foi grande tradutor de quadrinhos do inglês, do francês e do espanhol. Nelson Rodrigues e Jô Soares traduziram HQs, assim como Henfil e Ziraldio. Gostar de quadrinhos e saber se virar entre dois idiomas foi importante no início das carreiras do jornalista Jorge Pontual (que traduziu uns Asterix), da pesquisadora Sonia Bibe Luyten, do editor Helcio de Carvalho. Eu e uma geração aprendemos a ler com as traduções do Jotapê Martins - que ficou conhecido por incluir seu nome, nada sorrateiramente, no meio das histórias. Talvez porque, até a virada para o século 21, a imensa maioria desses tradutores e tradutoras não ganhava crédito nas traduções. Só ganharam por força de lei (a de Direitos Autorais, de 1998).
Mas os prêmios de quadrinhos no Brasil não deveriam prestigiar quadrinhos feitos no Brasil? Os que, por definição, não precisam de tradutor? Sim, vivemos numa situação subalterna de mais importação (e mais traduções) de quadrinhos do que de oferta de quadrinhos nacionais. Isso é ruim. Em minha defesa e da minha classe, assim como dos bons quadrinhos que vêm de fora, nenhum sistema de leitura vive só da própria língua, e a variedade no acesso ao estrangeiro faz bem a qualquer quadrinho nacional. Uma peça-chave nesse acesso ao estrangeiro? Quem traduz.
Chuto confiante que 99% dos leitores de mangá - a leitura de todo adolescente que ainda lê - não saberiam ler um balão se o mangá não passasse por um tradutor ou uma tradutora de japonês.
Tradutores de quadrinhos formaram e formam leitores.
O Brasil não é o único país que não dava prêmios para tradutores de quadrinhos. Fora uma e outra iniciativa de festivais na Europa, todas de pouca duração, não existiam prêmios para tradução de HQ até o Sophie Castille Award for Comics in Translation. Que ainda é um bebê: nasceu em 2023.
A francesa Sophie Castille não era tradutora - era agente de direitos internacionais e de licenciamento de HQ. Passou por essa função em editoras como Dargaud, Dupuis e Le Lombard antes de virar a principal executiva da área de licenciamento no conglomerado Mediatoon. Uma de suas grandes contribuições foi a fundação do Europe Comics, um consórcio de editoras pensado para espraiar o quadrinho europeu pelo mundo a partir de traduções para o inglês e disponibilidade digital. (Li e conheci muitos, mas muitos quadrinhos por causa do Europe Comics.) Era alguém que queria mais HQs chegando a mais gente - como um tradutor e como uma tradutora.
Castille faleceu em 2022, aos 51 anos. A tradutora e agente Ivanka Hahnenberger propôs criar um prêmio de tradução em sua homenagem. Para começar, o prêmio tem se vinculado a eventos de quadrinhos de vários países. Foi lançado no Lakes International Festival, da Inglaterra, quando premiou a tradução de DE FILOSOOF, DE HOND EN DE BRUILOFT/THE PHILOSOPHER, THE DOG AND THE WEDDING, por Michele Hutchison, a partir da HQ holandesa de Barbara Stok.
O Comic Barcelona adotou o Sophie Castille Award para premiar traduções de espanhol e catalão em 2024. Eventos da Itália, da Polônia, da Eslovênia e da Grécia abraçaram o prêmio daí em diante. Este ano, o Sophie Castille vai fazer sua estreia nos EUA (com chancela do site The Beat) e no SoBD, o festival de quadrinhos de Paris.
E estreou no Brasil. Agora, no último domingo.
Regina López Muñoz ao ganhar o Sophie Castille Award pela tradução de ALISON, de Lizzy Stewart, no Comic Barcelona 2024 [twitter]
Montserrat Meseses Vilar (com Paul Gravett) ao ganhar o Sophie Castille Award pela tradução de EL DISTURBIO ETERNO/THE ONCE AND FUTURE RIOT, de Joe Sacco, no Comic Barcelona 2026 [twitter]
Mary Lou Emberti Gialloreti anunciada vencedora do Sophie Castille Award pela tradução de IL MIO AMICO KIM JONG-UN/MEU AMIGO KIM JONG-UN, de Keum Sun Gendry-Kim, na Comicon Italia 2026 [twitter]
Carlos Mayor (ao lado de Ivanka Hahnenberger) ganha o Sophie Castille Award pela tradução de OBRA HERMÉTICA, de Moebius, no Comic Barcelona 2025 [twitter]
Para ser bem honesto, eu queria trazer o Sophie Castille Award para o Brasil. Mais do que ganhar um prêmio desses, eu queria organizar o prêmio aqui e reconhecer os e as colegas que merecem reconhecimento. Seria uma realização. Cheguei a conversar com a organizadora, dois anos atrás, mas não consegui fechar a parceria com nenhum evento brasileiro.
Quem desenroscou essa foi Lucio Luiz, editor, quadrinista, tradutor, wikipedista um tanto obcecado por prêmios de quadrinhos, e atualmente um dos diretores do Troféu Angelo Agostini (ou AA).
No início deste ano, ele me contou que tinha ajudado a desenroscar a categoria de Melhor Tradutor no AA, assim como as de Melhor Capista e Melhor Letrista. Todas foram novidades do Troféu. Agradeci pela parte que me cabia e comentei com ele sobre a minha vontade de trazer o Sophie Castille Award para o Brasil.
Em questão de duas semanas, o Lucio me informou que teríamos Sophie Castille Award no Brasil, este ano, vinculado ao AA. Ou seja, dois prêmios para tradutores de quadrinhos nasceriam juntos.
Então, para ser bem honesto pela segunda vez, tive um dedinho na criação de um prêmio que eu acabei ganhando.
O que importa de verdade nessa história é que eu fui só o primeiro ganhador. Assim espero.
Os indicador à Categoria Especial: Tradutor do Troféu Angelo Agostini 2026 [ACQ-SP]
Tanto a categoria de Melhor Tradutor do Troféu Angelo Agostini quanto a edição brasileira do Sophie Castille Award começaram com comissões que selecionam os indicados. Aí entram distinções importantes: o troféu do AA indica tradutores e tradutoras, pelo conjunto de sua obra, supostamente no ano que passou; o Sophie Castille indica obras e, por conseguinte, quem as traduziu. Outra distinção: no Sophie Castille, as obras têm que ser inscritas por suas editoras ou por seus tradutores.
Mais uma diferença importante: no Sophie Castille, a seleção dos semifinalistas, dos finalistas e do ou da obra vencedora fica a cargo de uma comissão julgadora - são regras que valem para todas as versões do prêmio no mundo. No AA, o Melhor Tradutor é escolhido por votação popular, aberta, em um formulário público.
Dandara Palankof mostrou que tem fãs à altura de sua produção gigante (e à altura de seus um metro e oitocentos centímetros). Ela tem 2446 créditos no Guia dos Quadrinhos, incluindo os créditos como editora. São 90 só no ano passado, o ano a que o troféu que ela ganhou se refere. Tem Vingadores, Demolidor, Batman, Paul Pope, Tartarugas Ninja e muito X-Men nessa lista.
Ela começou na tradução antes de mim, em edições de ESTRANHOS NO PARAÍSO de vinte anos atrás. Levou mais um tempo para ela se jogar de vez na tradução - aí por 2015, segundo o Guia dos Quadrinhos. Conheço a Dandara e o trabalho da Dandara desde o começo.
Já entrevistei ela a respeito da tradução biscoito fino de STUCK RUBBER BABY, já falei em algum lugar da pesquisa que ela fez - quase autobiográfica, dá pra dizer - sobre nomes de tipos de cabelo quando traduziu PENTE QUENTE, de Ebony Flowers. Já conversamos com ela no Notas dos Tradutores. Tem várias traduções dela que me causaram inveja gigante, como as de A VIDA É BOA, SE VOCÊ NÃO FRAQUEJAR, do Seth, e AQUELE VERÃO, das Tamaki. E tudo de Ed Brubaker e companhia.
(No domingo, naquela pizzaria depois do prêmio, ela disse que inveja uma tradução que por acaso ficou comigo: os três volumes de PATRULHA DO DESTINO POR RACHEL POLLACK.)
Meu prêmio não foi pelo conjunto da obra, mas por um trabalho específico: EIGHTBALL COMPLETO, de Dan Clowes, na edição da Darkside. Ganhei também esse parecer da comissão julgadora, composta por Jotapê Martins, Maiara Alvim e Heitor Pitombo. Reproduzo o parecer aqui porque tenho medo de perder. Sem desmerecer o troféu, gostei dele mais do que do troféu:
O júri da primeira edição do Sophie Castille Award decidiu que a melhor tradução de quadrinhos para o Português lançada em 2025 foi a de Eightball Completo, antologia escrita e desenhada por Daniel Clowes, com tradução de Érico Assis.
Érico faz jus ao prêmio não só por ter realizado um trabalho de muito fôlego, como também pela qualidade que imprimiu a um texto particularmente difícil. A fluência da narrativa e a fidelidade ao material original são aspectos louváveis da empreitada. O tradutor manteve o tom e o estilo de Clowes, garantindo uma benéfica invisibilidade em grande parte do gibi, sem se furtar à criatividade. Também vale ressaltar a adequação de cada personagem à sua fala por meio do emprego coerente e apropriado de coloquialismos e da norma culta.
Deve-se louvar o trabalho de Érico no que diz respeito ao uso moderado da norma-padrão numa trama que se ressentiria de formalismos indevidos. É nítido o equilíbrio no que se refere às estratégias de abordagem do material. Sem incorrer em excessos, a domesticação é patente quando se observa que as saudáveis adaptações culturais evidenciadas no texto facilitam o envolvimento do leitor, sem apagar a identidade cultural da HQ. Quando cedeu ao enfoque estrangeirizante, o tradutor o fez por razões estritamente editoriais e justificáveis.
Em suma, o trabalho de Érico Assis como tradutor desta coletânea de HQs de Daniel Clowes permite que o leitor tenha uma experiência que não se distancia da vivenciada por aqueles que conheceram Eightball em sua língua pátria. É um grande acréscimo para nós, amantes dos quadrinhos, que uma das obras mais emblemáticas da Nona Arte produzida na última década do século passado tenha agora uma versão brasileira desse calibre.
Faz parte desse calibre, como sempre vou lembrar, o letreiramento de Sergio Chaves e sua equipe na Darkside. Não é só porque tenho que ser consistente depois de escrever uma tese defendendo que letreiramento de quadrinhos é tradução. Se eu mexi nas palavras do Dan Clowes, você abre EIGHTBALL COMPLETO e vê/lê o trabalho da equipe do Sergio sobre as letras do Dan Clowes. O prêmio também é deles.
Tenho um receio de que esses prêmios sejam os únicos da história. O Troféu Angelo Agostini anunciou Melhor Tradutor como “categoria especial”, não como categoria regular. Os responsáveis pelo prêmio ainda vão decidir se a categoria volta no ano que vem. Do mesmo modo, manter o Sophie Castille Award no Brasil depende de vontade e de trabalho. Espero que a motivação que criou os dois se conserve.
Porque eu ainda quero ver o reconhecimento ao trabalho do Carlos H. Rutz em POPEYE: AS TIRAS DIÁRIAS. Do Erick Garcia com a Valéria Calipo em ABSOLUTE CAÇADOR DE MARTE. Da Flávia Yacubian em SIBYLLINE. Do trabalho constante e de vários anos do Julio Schneider com os fumetti, do Fernando Paz com as BDs. Quero ver o reconhecimento das traduções impressionantes do Mateus Potumati em HIP-HOP GENEALOGIA. E das três tradutoras que eu mais leio: Renata Silveira, Dirce Miyamura e Drik Sada. E dos históricos Jotapê Martins, Mario Luiz C. Barroso, Gilson Koatz, Ota Assunção.
Essa foto é histórica. Ou será histórica, se for um começo.
Os links abaixo são dos meus trabalhos lançados há pouco tempo ou a serem lançados em breve. Comprar pelos links da Amazon me rende uns caraminguás. Se puder, use os links.
As datas podem mudar a qualquer momento e eu não tenho nada a ver com isso.
recentes e relevantes
MEUS FANTASMAS, Tessa Hulls, quadrinhos na cia.
GONE, Jock, poptopia
VENDEMOS NOSSAS ALMAS, grady hendrix, intrínseca
O SEGREDO DE CHIMNEYS, Agatha Christie, harpercollins
O PRIMEIRO GATO NO ESPAÇO E A VINGANÇA DO BEBÊ PIRATA, Mac Barnett e Shawn Harris, todavia
TRÊS SEGUNDOS, Marc-Antoine Mathieu, comix zone
LIMBO, Deb JJ Lee, nversos
em julho
LITTLE BIRD: A BATALHA POR ALENTO, Darcy van Poelgeest e Ian Bertram, comix zone
EXCALIBUR: ESPADA DESEMBAINHADA (EPIC COLLECTION), Chris Claremont, Alan Moore, Alan Davis, Arthur Adams, vários, panini
HELLBLAZER: EDIÇÃO DE LUXO VOL. 14, Brian Azzarello, Richard Corben, Marcelo Frusin, Steve Dillon, panini
CHOQUES FUTURISTAS POR ALAN MOORE, Moore, Jim Baikie e outros, mythos (traduzi SKIZZ)
CRISE NAS INFINITAS TERRAS: CRISE NAS MÚLTIPLAS TERRAS vol. 3, Mike Friedrich, Len Wein, Dick Dillin, Joe Giella, Mike Friedrich, panini
KAIJUMAX VOLUME 1, Zander Cannon, cyberpulp comix
Anunciado esta semana pela Panini, A CASA DOS MISTÉRIOS VOL. 1 vai começar a republicação de material que eu traduzi para a revista VERTIGO há 16 anos, agora em edição de luxo. Série legal, onde aprendi muita coisa sobre jogos de linguagem e outras piruetas da então-Matthew Sturges, hoje-Lilah Sturges - que carinhosamente me retuitou esta semana elogiando minha atenção à tradução por conta dos papos que batemos naquela época. [panini]
em agosto
LOBO OMNIBUS VOLUME 2, Alan Grant, Val Semeiks e vários, panini
CONAN, O BÁRBARO 13, Jim Zub e Fernando Dagnino, panini
SOLOMON KANE: O ANEL DA SERPENTE, Patrick Zircher, panini
CRISE NAS INFINITAS TERRAS vol. 4, Cary Bates, Elliot S! Maggin, Gerry Conway, Paul Levitz, George Pérez, Dick Dillin, Martin Pasko, panini
em setembro
A CASA DOS MISTÉRIOS VOL. 1 , Lilah Sturges, Bill Willingham, Luca Rossi, Jill Thompson, Kyle Baker, Bernie Wrightson e outros, panini
CONAN, O BÁRBARO: A ERA CLÁSSICA VOL. 10, Roy Thomas, Gary Hartle, Michael Docherty e vários, panini
em 2026 (anunciados pelas editoras)
GIBI S.A., Shawna Kidman, veneta
TOTEM, Laura Pérez, nversos
CRUMB: A CARTOONIST’S LIFE, Dan Nadel, todavia
RAÍZES DE GINSENG, Craig Thompson, quadrinhos na cia.
LOCAL MAN VOL. 1, Tim Seeley e Tony Fleecs, poptopia
ECOS DO NORTE, vários autores canadenses, edição/curadoria de Bruno Porto, go!!! comics
Todas as minhas traduções: ericoassis.com.br
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Meu nome é Érico Assis. Sou jornalista e tradutor. Escrevo profissionalmente sobre quadrinhos desde 2000, traduzo profissionalmente desde 2009. Sou um dos criadores do podcast Notas dos Tradutores, colaboro com o canal de YouTube 2Quadrinhos e com o programa Brasil em Quadrinhos do Ministério das Relações Exteriores. Dou cursos de tradução na LabPub. E escrevo esta newsletter.
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Parabéns, Érico e Dandara, merecidíssimos!
Parabéns Érico!