153: NUFF SAID
sorteio | stan lee | stan lee de novo | meus trabalhos | fim
Estou viajando. Está tudo corrido. Está tudo atrasado.
Desculpem, vai ser mais um texto de gaveta. Dois textos.
Mas, antes, um sorteio.
LIMBO é uma das graphic novels mais bonitas que eu já traduzi. Sério, as ilustrações de Deb JJ Lee…
É melhor eu mostrar.
Eu traduzi, como já falei. Foi no ano passado; aqui na virapágina eu chamava de PROJETO BLEFAROTOMIA.
Saiu no mês passado pela editora nVersos. E a nVersos, em parceria com a virapágina, quer sortear um exemplar para você.
Todos os assinantes que colaboram com a virapágina, seja no plano mensal ou semanal, estão concorrendo a um exemplar de LIMBO, de Deb JJ Lee.
O resultado do sorteio sai na próxima edição, dia 7 de agosto de 2026.
Se você ainda não colabora com a virapágina, tem até o dia 6 de agosto de 2026 para entrar nessa lista de concorrentes. É só apertar abaixo e escolher o plano anual.
Tem sorteios de quadrinhos na virapágina todo mês. Participam todos os apoiadores do plano anual e, se você preferir o plano mensal, participa de todos os sorteios a partir do terceiro mês de assinatura.
Muito obrigado à nVersos pela parceria.
Como comentei lá em cima, vamos com dois textos de gaveta. Sobre Stan Lee.
A primeira versão do primeiro saiu no Omelete há… nossa, já faz tanto tempo? Treze anos. Foi a única vez em que vi Stan Lee na minha frente.
O segundo saiu, em outra versão, no jornal O Globo em 2021.
Como é estar em um painel com Stan Lee
As piadas se repetem, mas o velhinho sabe entreter
Érico Assis, na Comic Con de San Diego, 2013
“Meu, que louco eu aqui fazendo contato visual com o Stan Lee”, disse o fã que abriu a sessão de perguntas do painel Stan Lee’s World of Heroes, na Comic Con 2013.
É um jeito de expressar a primeira vez que se vê o senhor de 90 anos, corresponsável pela maioria dos personagens com longevidade da Marvel Comics.
Lee não foi falar sobre a Marvel. Seu nome e rosto hoje são marca, que ele aluga para diversos projetos em quadrinhos, animação e cinema que tenham alguma relação com super-heróis. No caso, o painel era de uma das locatárias de Lee, o canal do YouTube World of Heroes.
Diferente de outras iniciativas que levam o nome do velhinho, Stan Lee é bem ativo no canal. Grava vídeos do seu escritório, entrevista celebridades, participa de produções tipo um vídeo em que “ele” faz parkour (nota 10 de 10) e aparece em versão animada. Entre as melhores atrações estão os vídeos em que se propõe finais alternativos para blockbusters recentes, supostamente propostos por Lee - a seção chama-se How it Should Have Ended.
O painel começou com os outros animadores, roteiristas e criadores que fazem parte do canal, desconhecidos do grande público. Lee chegou atrasado - “ele tem que manter a aura de rockstar”, justificou o diretor do World of Heroes, Ben Gigli.
Apesar de os fãs fazerem perguntas em microfone para todo o salão ouvir, Gigli era o responsável por repassar as perguntas no ouvido de Lee. O nonagenário respondeu questões sobre Jack Kirby - “de mim os fãs gostavam; ele, adoravam. Isso sempre me incomodou”, disse com camadas de ironia - e sobre os próximos filmes que a Marvel devia fazer - “eu também queria que fizessem todos, mas só dá para fazer alguns de cada vez. Enquanto não saem, poupem dinheiro: não gastem em outros filmes não-Marvel”. Lee comentou também suas participações especiais nos filmes: “Não vejo como participação especial, vejo como personagem coadjuvante. Espero que eu chegue a protagonista. Acho todas minhas participações obras-primas”.
Lee revelou inclusive que, em Capitão América 2, interpreta um segurança e que “acontece uma coisa que eu não devia deixar acontecer”.
(Eu tirei essa foto. Eu estava lá!)
Quem leu entrevistas de Lee ou viu o quadrinista já conhece as piadas. Pergunta de fã: “Que personagem você gostaria de interpretar?”. Resposta: “Teria que ser o Tony Stark. Porque ele é muito parecido comigo. Rico, inteligente, irresistível, muitas mulheres. Tony Stark e Stan Lee, nenhuma diferença”.
Outra pergunta: “Eu e meus amigos estamos sempre discutindo quem ia ganhar entre Wolverine e Hulk. Quem, Stan?”. Resposta: “Muito simples. Por favor, tomem nota: quem o roteirista quiser que ganhe”.
Ainda falando dos filmes, Stan cometeu um gafe: “E quando não estiverem no cinema, acessem o canal do YouTube Planet of Heroes! É esse o nome, né?”. Diretor do canal: “É World of Heroes”. Stan: “World of Heroes! Excelsior!”.
O mais perto que eu cheguei do tio Stan.
Três ângulos de Stan Lee
ÉRICO ASSIS
Sr. Maravilha: a biografia de Stan Lee
Roberto Guedes, ed. Noir, 256p, R$ 69,90
A espetacular vida de Stan Lee
Danny Fingeroth (trad. Flora Pinheiro), ed. Agir, 488p, R$ 79,90 (físico), R$ 54,99 (digital)
Invencível: a ascensão e queda de Stan Lee
Abraham Riesman (trad. André Gordirro), ed. Globo, 400p, R$ 69,90 (físico), R$ 49,90 (digital)
É possível que boa parte da Humanidade já reconheça aquele velhinho de bigode e de óculos escuros, o que faz pontas em todos os filmes da Marvel. Se você não o conhecia, alguém deve ter cutucado seu ombro durante o filme. “Esse é o Stan Lee”, dizem. “Esse é o dono da Marvel”, quem sabe. Ou “Esse velhinho criou tudo da Marvel.”
O velhinho não criou tudo da Marvel, tampouco foi dono da Marvel. Foi, sim, um funcionário-estrela da editora onde entrou aos 17 anos e, na prática, nunca saiu. Ele participou da criação das maiores personagens da Marvel e virou seu porta-voz. Não foi o único criador das personagens, porém, e o fato de ter sido pintado como tal é o ponto mais controverso de sua vida.
Stan Lee faleceu em 2018, aos 95 anos. Três biografias de Lee acabam de sair no Brasil. Mesmo que contem a mesma história, cada autor parte de um ângulo diferente.
Há o fã apaixonado Roberto Guedes, único brasileiro e autor do livro mais resumido, Sr. Maravilha. Há o retrato extenso e dramático de Danny Fingeroth, que trabalhou com Lee dentro e fora da Marvel, em A espetacular vida. E há uma reportagem profunda, mas angulada para desbaratar o marketing (e mentiras) em torno do biografado em Invencível, de Abraham Riesman.
O PARENTE - Lee nasceu Stanley Martin Lieber em 1922, filho de imigrantes judeus romenos em Manhattan. (O livro de Riesman é o único que traça a árvore genealógica até pogroms na Europa no século 19.) O garoto tinha seis anos no dia do crash da bolsa de valores que desencadeou a Grande Depressão. Cresceu na penúria da época.
Chegou na Marvel – na época, uma editora que atendia por vários nomes e que publicava a revista Marvel Comics – porque o dono era casado com uma parente e empregava primos de qualquer grau. Em seguida, o adolescente estava trabalhando com Capitão América, sucesso criado pelos colaboradores mais importantes da casa, Joe Simon e Jack Kirby. Foi quando adotou a assinatura “Stan Lee”.
Um desentendimento que pode ter sido provocado pelo próprio Lee (nenhuma biografia conclui) levou à demissão de Simon e Kirby. Lee virou editor de Capitão e outros gibis. Depois de servir na Segunda Guerra Mundial – sem deixar de colaborar com os quadrinhos –, ele assumiu a função de editor e roteirista-mor da Marvel. Seguem quase duas décadas em que ele trabalhou em quadrinhos qualquer nota, mas acumulando experiência.
Em 1961, começa um período criativo intenso que leva a Marvel aos holofotes: Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, X-Men, Homem de Ferro, Thor, Demolidor e Vingadores estreiam em questão de três anos. Coincidência ou não, o período começa quando Jack Kirby volta à editora – mesmo que ele ainda desconfie de que Lee tenha puxado seu tapete vinte anos antes.
QUEM CRIOU O QUÊ - E aqui começa a grande controvérsia. Lee tinha um jeito peculiar de roteirizar quadrinhos, que acabou batizado de “Método Stan Lee”. O “roteiro” podia ser uma sinopse ou uma conversa por telefone sobre o conteúdo da edição. Até um bilhete. A partir daí, o desenhista desenhava vinte páginas de história. Lee acrescentava os diálogos depois.
Numa situação de trabalho dessas, quem é o autor do gibi: Lee, que deu a sinopse? Ou os desenhistas, que bolaram a narrativa e o visual?
A melhor resposta talvez seja: os dois. Mas o que se seguiu não colaborou com essa solução salomônica. Lee sempre ganhou mais destaque no marketing da Marvel e na imprensa como criador das personagens, e às vezes se afirmou como único criador. Mesmo depois que ele parou de escrever e editar, as revistas saíam com a chamada “Stan Lee Apresenta”. Os colegas não tinham essa honra.
O livro de Fingeroth detalha, por exemplo, as desavenças filosóficas entre Lee e Steve Ditko. O primeiro desenhista de Homem-Aranha e Dr. Estranho viria a declarar que “ter uma ideia não é nada, porque, até que se torne uma coisa física, é apenas uma ideia”, justificando-se como principal criador dos personagens. Lee retrucava: “a pessoa que teve a ideia é o criador.”
Somando à controvérsia, há desenhistas que alegam ter apresentado desenhos das personagens antes de existir roteiro, ou que escreviam as histórias sem receber crédito. Pesa na discussão o fato de Lee ter sido funcionário da Marvel, enquanto os desenhistas eram free-lancers. A briga por quem merece mais crédito por Homem-Aranha, Vingadores e companhia segue até hoje entre fãs e historiadores.
Riesman diz que não há registros confiáveis para resolver a controvérsia, mas dá voz aos críticos que veem Kirby como criador mais importante que Lee. Fingeroth se aprofunda em todos os lados do debate, mas não se posiciona. Guedes, também autor de biografias de Ditko e Kirby, aponta o dedo contra os fãs que “não teriam vergonha em questionar, de maneira cínica, e até leviana, o papel de Stan Lee na construção do Universo Marvel”.
Seja como for, as principais inovações atribuídas a Lee são os personagens com uma camada de fracasso – a arrogância de Tony Stark/Homem de Ferro, os incompreendidos X-Men, os boletos atrasados de Peter Parker – e a interligação dos personagens em um universo só, o que era explorado comercialmente tanto na época quanto nos filmes de hoje do mesmo modo: você tem que ler/assistir tudo.
O HIPERATIVO – Riesman é taxativo: “Stan foi um homem cujo sucesso veio mais da ambição do que do talento”. (Guedes apontaria o dedo contra ele.) Fingeroth enxerga mais hiperatividade do que ambição: “Parece possível que Lee, embora muito inteligente, criativo e dedicado, tivesse alguma forma de DDA ou TDAH, o que o tornava mais adequado para um fluxo interminável de trabalhos curtos”. (Não há diagnóstico oficial.)
O que nenhum biógrafo nega é a energia da figura. Nos anos 1960, escrevendo e editando centenas de páginas por mês, Lee ainda tentou carreira de palestrante em universidades e até um programa de tevê. A maioria das participações no cinema vieram depois de ele completar oitenta anos. Aos 90 e poucos, ele ainda tinha o dedo em quadrinhos, livros, programas de tevê e ia às convenções conhecer fãs [vide acima].
Era natural, aponta Fingeroth, que a pessoa de mais vigor tivesse mais destaque numa carreira no entretenimento. Jack Kirby era muito turrão para os holofotes – “Minha [primeira] lembrança é de Jack sentado, desenhando, fumando e resmungando”, Lee diz numa citação do livro de Guedes (que carece de referências das fontes). Ditko era um objetivista randiano que não se deixava nem fotografar. Outros colegas não davam bola para o destaque. Lee era o inverso, e tinha um vácuo a preencher.
Enquanto Guedes e Fingeroth dedicam o grosso de seus livros ao momento mágico da Marvel nos anos 1960, com detalhes sobre a criação de Homem-Aranha e companhia, Riesman passa relativamente depressa por esse momento. Seu Invencível vai fundo no que está na penumbra: a Stan Lee Media, empreendimento surgido durante a bolha pontocom com um sócio muito suspeito – Peter Paul, que acabou preso no Brasil –, e as figuras esquisitas que se associaram a Lee na última década – como um que supostamente queria amostras de sangue do astro para um esquema de autógrafos sui generis.
Em comparação final, a biografia de Riesman é uma graphic novel contemporânea em que o protagonista tem sérias falhas de caráter. Na Espetacular vida de Fingeroth, o biografado-herói tem pés de barro como o típico super-herói Marvel, mas ainda é um herói. E o Sr. Maravilha de Guedes é um super-herói pré-Lee, com vilões bem definidos e a moral do seu lado. Você escolhe qual Lee quer ler.
[Não sei se ficou claro, mas eu prefiro a do Abraham Riesman - aliás, hoje Josephine Riesman. Pesquisa e texto impecáveis.]
Não sei o quanto vocês ainda aguentam de Stan Lee, mas também escrevi outros dois textos para o Omelete:
e Biografia de Stan Lee tem publicação garantida no Brasil, que na verdade é um apanhado de tretas que rolaram na época que saiu a biografia de Riesman.
E também traduzi eu mesmo uma bio do homem: a biografia em quadrinhos, por Tom Scioli, publicada pela Conrad. Que recomendo muito, é óbvio.
Nuff said!
Os links abaixo são dos meus trabalhos lançados há pouco tempo ou a serem lançados em breve. Comprar pelos links da Amazon me rende uns caraminguás. Se puder, use os links.
As datas podem mudar a qualquer momento e eu não tenho nada a ver com isso.
recentes e relevantes
MEUS FANTASMAS, Tessa Hulls, quadrinhos na cia.
GONE, Jock, poptopia
O SEGREDO DE CHIMNEYS, Agatha Christie, harpercollins
O PRIMEIRO GATO NO ESPAÇO E A VINGANÇA DO BEBÊ PIRATA, Mac Barnett e Shawn Harris, todavia
TRÊS SEGUNDOS, Marc-Antoine Mathieu, comix zone
LIMBO, Deb JJ Lee, nversos
em julho
LITTLE BIRD: A BATALHA POR ALENTO, Darcy van Poelgeest e Ian Bertram, comix zone
EXCALIBUR: ESPADA DESEMBAINHADA (EPIC COLLECTION), Chris Claremont, Alan Moore, Alan Davis, Arthur Adams, vários, panini
HELLBLAZER: EDIÇÃO DE LUXO VOL. 14, Brian Azzarello, Richard Corben, Marcelo Frusin, Steve Dillon, panini
CHOQUES FUTURISTAS POR ALAN MOORE, Moore, Jim Baikie e outros, mythos (traduzi SKIZZ)
CRISE NAS INFINITAS TERRAS: CRISE NAS MÚLTIPLAS TERRAS vol. 3, Mike Friedrich, Len Wein, Dick Dillin, Joe Giella, Mike Friedrich, panini
KAIJUMAX VOLUME 1, Zander Cannon, cyberpulp comix
em agosto
LOBO OMNIBUS VOLUME 2, Alan Grant, Val Semeiks e vários, panini
CONAN, O BÁRBARO 13, Jim Zub e Fernando Dagnino, panini
SOLOMON KANE: O ANEL DA SERPENTE, Patrick Zircher, panini
CRISE NAS INFINITAS TERRAS vol. 4, Cary Bates, Elliot S! Maggin, Gerry Conway, Paul Levitz, George Pérez, Dick Dillin, Martin Pasko, panini
em setembro
A CASA DOS MISTÉRIOS VOL. 1 , Lilah Sturges, Bill Willingham, Luca Rossi, Jill Thompson, Kyle Baker, Bernie Wrightson e outros, panini
CONAN, O BÁRBARO: A ERA CLÁSSICA VOL. 10, Roy Thomas, Gary Hartle, Michael Docherty e vários, panini
CRISE NAS INFINITAS TERRAS VOL. 5, Gerry Conway, Dick Dillin e vários, panini
em 2026 (anunciados pelas editoras)
GIBI S.A., Shawna Kidman, veneta
TOTEM, Laura Pérez, nversos
CRUMB: A CARTOONIST’S LIFE, Dan Nadel, todavia
RAÍZES DE GINSENG, Craig Thompson, quadrinhos na cia.
LOCAL MAN VOL. 1, Tim Seeley e Tony Fleecs, poptopia
ECOS DO NORTE, vários autores canadenses, edição/curadoria de Bruno Porto, go!!! comics
Todas as minhas traduções: ericoassis.com.br
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Meu nome é Érico Assis. Sou jornalista e tradutor. Escrevo profissionalmente sobre quadrinhos desde 2000, traduzo profissionalmente desde 2009. Sou um dos criadores do podcast Notas dos Tradutores, colaboro com o canal de YouTube 2Quadrinhos e com o programa Brasil em Quadrinhos do Ministério das Relações Exteriores. Dou cursos de tradução na LabPub. E escrevo esta newsletter.
Publiquei dois livros: BALÕES DE PENSAMENTO 1 e 2, disponíveis em formato digital e físico na Amazon.
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