142: ABSOLUTE INVERSÃO
e se a dc absolute fosse mais mangá? | meus trabalhos | fim
É a figurinha que eu mando com mais frequência pra Marcela. Já virou até uma… metonímia (?) entre a gente. Abreviando um sentimento. Falamos, ao vivo: “Isso é tão ‘figurinha do motorista de ônibus’, né?”
Essa figurinha aqui:
O que eu quero contar tem tudo a ver com essa figurinha.
Com uma dose de outro meme, o da Kombucha Girl.
Vamos lá: o que me deixou pensando “a que ponto chegamos?” foi esse texto do Rich Johnston, fundador do Bleeding Cool, com uma ideia… bom, é uma ideia com imenso potencial de “figurinha do motorista de ônibus”. Nas proporções do meu querido nicho dos quadrinhos.
O título e a primeira proposta do texto ainda são inocentes perto do que vem mais adiante. “A DC não vai adiantar a publicação de Absolute Batman no formato Compact?” Johnston propõe que a DC Comics lance de uma vez os quadrinhos do selo Absolute em formato de bolso, o Compact. Porque o formato é mais barato e chegaria a mais leitores. E daria mais dindim, quem sabe.
Se você não é desse mundo dos quadrinhos de super-hominhos - e que bom que você ainda está nesse texto, obrigado - “Absolute” é um selo de gibis que foi lançado há um ano e meio e virou sucesso, hã, absoluto de vendas. Fala-se em números milionários por edição, coisa que o mercado de quadrinhos gringo não via há bastante tempo. A maioria dos gibis não passa dos poucos milhares. O mais surpreendente: esses números milionários começaram bem e estão crescendo.
A ideia por trás dos “Absolutes” é repaginar os super-heróis clássicos, com algumas inversões do contexto original. Batman, por exemplo, não é um bilionário que combate o crime, e sim um cara de classe média e bombadão que resolve combater o crime em Gotham City. Seu vilão principal, o Coringa, ele sim é bilionário.
E aí aplique umas ideias parecidas a Superman, Mulher-Maravilha, Flash e outros e seus universos. Repaginar tudo. Dentro de um contexto mais contemporâneo. A ideia que gerou o selo, aliás, é bem interessante: se pasa em um mundo muito parecido com o nosso mundo real, onde o cinismo venceu e a ideia de que heróis vão aparecer pra nos ajudar é ridícula. Até que os heróis aparecem.
Como eu ia dizendo, mega sucesso de vendas. E, em alguns casos, também de crítica. Tem suas histórias boas. Teve uma em que o Batman chutou, socou e quebrou um grupo neonazista que virou tipo uma grande catarse dos nossos anos dois mil e vinte. Saiu numa das Absolutes. Ontem saíram os indicados ao Prêmio Eisner 2026 e o selo Absolute ficou com umas quinze indicações. Inclusive à história do Batman contra neonazis.
O outro mega sucesso de vendas da vez da DC Comics é uma linha chamada DC Compact. Que é uma ideia que veio de licenciadas da Europa e é muito simples: relançar gibis de sucesso da editora em formato menor - parecido com o formatinho que a gente tinha no Brasil - e vender a preço “de bolso”: 10 dólares. Considerando que um gibizinho fininho de vinte páginas está custando 5 dólares - e rende uns cinco minutos de leitura -, e que pululam coleções de luxo de 50 dólares pra cima, pagar dez dólares por 200, 300, até 400 páginas - algumas horas de leitura - é um baita negócio. Sobretudo para novos leitores.
Além disso, os Compact trazem histórias que já passaram no teste do tempo. A DC só selecionou clássicos de seus oitenta e tantos anos - Cavaleiro das Trevas, Watchmen, Authority, Fábulas, Senhor Milagre, Grandes Astros: Superman, Reino do Amanhã - para relançar em versão de bolso. E os leitores compareceram. Tem muito relato de lojas de quadrinhos e livrarias abrindo mais espaço para os DC Compact porque, enfim, o público gostou do preço baixo and das histórias.
A proposta do texto de Johnston, então, é isso: quem sabe você junta uma coisa que vende muito bem - o selo Absolute - com outra coisa que vende muito bem - a linha DC Compact - e cria uma coisa mega estrondo master power motherfucker vendedora? Parece óbvio.
Concepts criados pelo Bleeding Cool do que seriam os “Absolute Compacts”
Até bater em alguns entraves. Como a mentalidade comercial relativamente lógica de que “se tem bastante gente pagando caro pelo meu produto, por que eu vou baixar o preço?”. O selo Absolute vende bem, muito bem, em gibizinho de cinco dólares e vende bem, muito bem, em coletâneas fininhas que custam de vinte dólares pra cima. A editora está lucrando, os lojistas estão lucrando, os leitores estão comprando. Pra que mexer nisso?
Fora que a linha Compact, repito, lança o que já foi consagrado pelo tempo e já foi lançado em ene formatos (e, assim, se pagou múltiplas vezes) antes de chegar no baratinho de bolso. A linha Absolute, também repito, tem só um ano e meio de vida.
Mas a proposta de Johnston, o selo Absolute e a linha Compact têm a ver com uma palavra que eu não usei até aqui, mas que lança uma sombra enorme sobre tudo que eu escrevi até o momento.
Mangás.
O que me lembra outro meme: aquele do efeito dominó. Tipo esse:
Se a gente adaptar pro mercado de quadrinhos, podia ser assim:
Mangás representam entre 50% e 70% do mercado brasileiro de quadrinhos. Na França, a França que ama suas BDs, mangás passaram de 50% do mercado. Nos EUA, é complicado chegar em números confiáveis, mas tem quem chute, com alguma confiança, que os números são parecidos com os do Brasil e da França. Super-heróis como os da DC estão no resto dos gráficos, misturados com graphic novels, infantis, independentes etc. Resto do resto.
Mangás influenciam o jeito dos gringos fazerem quadrinho desde que o Frank Miller pirou olhou as páginas do Kojima em LOBO SOLITÁRIO, há mais de quarenta anos. A influência e a concorrência do mangá em relação ao quadrinho dos EUA cresceu geometricamente e, hoje, está num pico. O ocidente tem milhões de leitores de mangá que nem querem chegar perto dos outros quadrinhos. Muitos até se recusam a chamar mangá de quadrinho; é mangá, oras. Do mesmo modo, muito leitor de gibi ocidental não quer ser visto com um mangá na mão - mas o número desses leitores é menor do que os de mangazeiros.
A linha DC Absolute é abertamente, escancaradamente, declaradamente inspirada em mangás. A Mulher-Maravilha Absolute carrega o espadão do Guts de BERSERK. O Batman Absolute curte posar com uma motosserra para não ficar dúvida de que seus autores leram CHAINSAW MAN. Tem detalhes de narrativa e desenho que são mais mangá do que comic. Ainda é um quadrinho americano na maioria dos aspectos, mas cheio de adereços nipônicos. Quase um cosplay.
E quanto à linha Compact? O que fez as licenciadas da Europa e a DC dos EUA lançarem o formato menor e barato não foi imitar o velho formatinho brasileiro. Heh. Foi para criar uma competição direta com os mangás, que têm quase o mesmo formato físico e custam quase os mesmos dez dólares. Um dos motivos pelos quais a linha Compact deu certo, dizem os lojistas, é que leitor de mangá “deixa-se confundir” pelos gibis de super-herói tradicional quando eles têm o tamanho de um mangá. E também curtem o preço, é óbvio.
É aí que chega a proposta mais inovadora, mais disruptiva (como dizem os velhos), mais explode-cabeça, mais “a que ponto chegamos” do Rich Johnston.
E se os gibis Absolute, além de influenciados pelo mangá na narrativa e além de serem lançados com tamanho e formato de mangá, tivessem mais cara de mangá?
E se os gibis Absolute fossem relançados em preto e branco e com sentido de leitura oriental?
Porque, caso você nunca tenha aberto um mangá, a imensa maioria deles é em preto e branco e você lê os quadrinhos da direita para a esquerda. Alguns mangás eram espelhados para lançamento no ocidente, décadas atrás, mas hoje em dia leitor de mangá acharia isso um cataclismo. Se é mangá, você tem que ler da direita pra esquerda, oras.
Então, quem sabe espelhar e tirar as cores de um gibi Absolute? Tipo isso…
…virar mais ou menos isso:
Ou isso…
…virar isso (falta desespelhar os balões, mas aí bate no meu limite com um editor de imagens):
Quem sabe isso:
Virar isso:
Tudo, provavelmente, com bem menos tons de cinza. Mas aí estamos falando, de novo, dos meus limites num editor de imagens.
Johnston justifica do ponto de vista comercial: um gibi “Absolute Compact” teria produção barata, impressão barata e não afetaria as vendas do que já existe a cores e mais caro. Porque ia atingir um público que os Absolutes tradicionais não atingem, um público que poderia gastar isso como gasta em Pokémon.
“A galera tradicional, que não suporta ler da direita pra esquerda, não vai nem chegar perto dessas versões”, escreve Johnston. “Vai continuar comprando as versões em formato americano, luxuosas e mais caras, sem causar impacto nas vendas dos gibis avulsos. Já a turma do mangá vai cair matando nessas novas edições.”
Tem alguns detalhes narrativos que o próprio Johnston aponta, que talvez exigissem um tempo a mais na adaptação técnica depois do espelhamento. Assim como acontecia quando mangás eram espelhados no ocidente e o Japão ganhava muitos samurais canhotos, o Batman e outros personagens destros iam trocar de mão dominante.
Tipo:
E talvez caberia algum ajuste no roteiro da Mulher-Maravilha Absolute, que - spoiler - não tem o braço direito.
Assim como mapas ou imagens da Terra iam ficar espelhadas e erradas. Mas, enfim, isso toma alguns minutos de Photoshop.
Como eu ia dizendo, fui pego de surpresa pela proposta. Fiz um “rá!” Acho que leitor de super-hominhos e de mangá é surpreendido pela disrupção que o Johnston propõe. Espelhar gibi americano pra chamar leitor de mangá? Rá!
Tenho idade para ter acompanhado a introdução dos mangás com leitura oriental no Brasil e nos EUA. Li meu primeiro Dragon Ball da direita pra esquerda há 26 anos. Na época, levei uns cinco minutos para me acostumar e pronto, leio mangá até hoje.
Nos EUA, sei que a resistência, a que defendia espelhar mangá, durou mais tempo. Os japoneses queriam leitura oriental pros gringos, os editores gringos achavam absurdo; os japoneses conquistaram os leitores, os editores americanos capitularam. Hoje, como eu disse, publicar mangá espelhado é comprar briga.
E publicar um comic espelhado como mangá é uma inversão (literalmente, rá) desse papo de 25 anos atrás. Imagine a reação dos japoneses: eles insistiram pra espelhar nosso gibi, perderam essa briga, agora querem espelhar os gibis deles!
E outra: inverter gibi ocidental pra parecer ocidental não seria… yellowface? “Apropriação cultural”? Será que os leitores de mangá vão se revoltar? Vão se sentir enganados? Os japoneses vão se revoltar com o gibizinho gringo que quer posar de oriental?
Tem chance de os leitores de super-hominho se revoltarem mais do que todos, pois são os mais apegados a tradições - mesmo que nem venham a chegar perto de um “Absolute Mangá”, muito menos comprar, e que ainda tenham o seu Batman colorido em papel acetinado dentro de uma redoma de acrílico na estante (que também não leem).
Acho todas as discussões bobas. Mas o Twitter existe e adora as tais das “guerras culturais”.
O que me pega nessa proposta - que, repito, é só uma proposta, uma ideia - é que ela é ousadérrima para o padrão do editor norte-americano de quadrinhos. E afinal, não veio de um editor norte-americano - Rich Johnston é um jornalista inglês. Mas, pensando comercialmente, imagino editor da terra do Trump fazendo a Kombucha Girl ao ler a proposta:
Vivi para ver esse momento. Não é um “a que ponto chegamos” de indignação. É um “a que ponto chegamos”, no meu caso, de surpreendido.
Para encerrar, outra história que eu adoro sobre a gênese da linha Absolute. A concepção partiu de uma versão alternativa da origem do Batman: Bruce Wayne não ia ver os pais assassinados por um bandido num beco. Bruce ia testemunhar a morte do pai - só o pai, que é professor - durante um tiroteio em escola. Sim, pra enfiar o dedo na chaga exposta da obsessão americana com porte de armas. (Houve 229 casos de tiroteio em escolas dos EUA, com mortos, entre 2018 e 2025.)
A DC não deixou. Os autores negociaram: a cena da morte do pai de Bruce acontece em um passeio da escola no zoológico de Gotham City. Não é exatamente um tiroteio em escola, mas é próximo.
O que mostra até onde vai a coragem dos editores da DC. Pra espelhar gibi e lançar uma nova guerra cultural, será que essa coragem existe?
Os links abaixo são dos meus trabalhos lançados há pouco tempo ou a serem lançados em breve. Comprar pelos links da Amazon me rende uns caraminguás. Se puder, use os links.
As datas podem mudar a qualquer momento e eu não tenho nada a ver com isso.
agora, no catarse
KAIJUMAX VOLUME 1, Zander Cannon, cyberpulp comix (lançamento em junho)
recentes e relevantes
MEUS FANTASMAS, Tessa Hulls, quadrinhos na cia.
GONE, Jock, poptopia
VENDEMOS NOSSAS ALMAS, grady hendrix, intrínseca
O SEGREDO DE CHIMNEYS, Agatha Christie, harpercollins
O PRIMEIRO GATO NO ESPAÇO E A VINGANÇA DO BEBÊ PIRATA, Mac Barnett e Shawn Harris, todavia
TRÊS SEGUNDOS, Marc-Antoine Mathieu, comix zone
em maio
A ESPADA SELVAGEM DE CONAN 5, Jim Aaron, Geof Isherwood, Jim Zub, Roberto De La Torre, panini
CONAN, O BÁRBARO 11, Jim Zub, Jonas Scharf, Diego Rodriguez, panini
ENTERREI TODOS NO MEU QUINTAL, Luckas Iohanathan, comix zone (escrevi o posfácio)
Você já se imaginou traduzindo kaijus fazendo rap? Eu não, mas traduzi.
De KAIJUMAX VOLUME 1, que está nos últimos dias no Catarse. Estou terminando a revisão - as letras do Johnny Vargas na edição nacional merecem elogios tamanho kaiju. Sai em junho. [catarse]
em junho
LIMBO, Deb JJ Lee, nversos
NARRATIVAS GRÁFICAS E RECURSOS VISUAIS: PRINCÍPIOS E PRÁTICAS DO MESTRE DOS QUADRINHOS, Will Eisner, wmf (tradução de Alexandre Boide, eu editei)
CONAN, O BÁRBARO 12, Jim Zub, Jonas Scharf, Diego Rodriguez, panini
EXCALIBUR: ESPADA DESEMBAINHADA (EPIC COLLECTION), Chris Claremont, Alan Moore, Alan Davis, Arthur Adams, vários, panini
HELLBLAZER: EDIÇÃO DE LUXO VOL. 14, Brian Azzarello, Richard Corben, Marcelo Frusin, Steve Dillon, panini
em 2026 (anunciados pelas editoras)
GIBI S.A., Shawna Kidman, veneta
TOTEM, Laura Pérez, nversos
CRUMB: A CARTOONIST’S LIFE, Dan Nadel, todavia
LITTLE BIRD, Darcy van Poelgeest e Ian Bertram, comix zone
RAÍZES DE GINSENG, Craig Thompson
Todas as minhas traduções: ericoassis.com.br
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Meu nome é Érico Assis. Sou jornalista e tradutor. Escrevo profissionalmente sobre quadrinhos desde 2000, traduzo profissionalmente desde 2009. Sou um dos criadores do podcast Notas dos Tradutores, colaboro com o canal de YouTube 2Quadrinhos e com o programa Brasil em Quadrinhos do Ministério das Relações Exteriores. Dou cursos de tradução na LabPub. E escrevo esta newsletter.
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E que você vire ótimas páginas até a semana que vem.




























Memes perfeitos usados corretamente. A proposta é bem estranha, mas pode ser bom. Ao menos uma versão preto em branco em papel jornal, mas sem o espelhamento, e com preço acessível, me parece mais palpável.
Erico, vou começar um canal de YouTube meio puxado por essa discussão do Absolute.
Mas indo um pouco mais atrás…indo até o Liefield.
Tenho um perfil de reviews @alekizcomix lá no insta e vou gravar o vídeo pro youtube