146: AA PACO ROCA
el viaje | sophie castille award | minhas traduções | fim
Paco Roca é um professor. Ele está ensinando uma geração de leitores que não tinha contato com quadrinhos a ler o quadrinho adulto, com a sofisticação narrativa que se vê nas melhores produções de HQs do mundo - as que não atingem o mesmo público que Roca atinge. E que ele consegue atingir graças aos temas que escolhe, à maneira como os trabalha e a essa capacidade de pinçar e mobilizar o que a narrativa de HQ tem de único e melhor.
É o caso de vários de seus quadrinhos e também é o do seu último, EL VIAJE, lançado no final de maio na Espanha.
É uma história sobre separação: Fran, um escritor espanhol, separou-se da esposa há poucos meses e, numa viagem de divulgação do seu novo livro, passa dias preso na Patagônia argentina porque seu voo foi cancelado.
É o tempo para Fran pensar no que levou à separação, no que ele quer quando voltar para casa e no que significa ser um casal, morar juntos, ter filhos, criar uma família. Também no que acontece quando o amor esfria e no que é se completar com o outro - e refletir se precisamos, de fato, nos completar com outros.
Se o tema parece um tanto monótono ou batido - e Roca, em entrevistas, diz que seus quadrinhos parecem um saco quando ele conta a sinopse -, o que vale é como Roca conta a história. E aí entram aqueles recursos únicos dos quadrinhos.
Como contar flashbacks, por exemplo. Se, na evolução da linguagem das HQs, autores já marcaram a divisão entre cenas do presente e do passado com recursos como requadros tracejados ou em fumacinha, o passado em preto e branco versus o presente a cores - ou o cabeção de um personagem que diz “foi assim que aconteceu…” e o mesmo cabeção que volta quando o flashback encerra - os quadrinhos contemporâneos têm uma tendência maior à sutileza. Para o leitor atual, uma leve mudança de traço ou de tonalidade das cores já significa tempos diferentes.
É aos filtros de cores que Paco Roca recorre em EL VIAJE quando Fran reflete sobre a vida de casado. As cenas do passado ganham um filtro azulado sutil - que se reflete nos balões de falas do passado, também azuis-claros, em contraste com os balões brancos das cenas no presente.
Ciente de leitores novos ao recurso, Roca o introduz nas primeiras páginas com cuidado. Fran caminha pelo aeroporto da Patagônia em vários quadros sem fala, pensando, refletindo, até começar uma cena azulada. O leitor que nunca viu o recurso aprende que é um código para cenas do passado.
Entendido esse código, Roca passa ao filtro rosa. Se o azul é passado, o rosa é a cor das cenas que não aconteceram, mas que poderiam ter acontecido ou que ele gostaria que acontecessem. A vez em que a esposa o convidou para sair e ele poderia ter dito sim; as discussões que podiam ter se resolvido com uma fala que não saiu; a possibilidade de voltar para casa, depois dessa viagem, e reatar a relação.
Se o azul diz que o passado é frio, o rosa sugere o julgamento do próprio Fran sobre essas cenas que não aconteceram: ele está imaginando um mundo com cor de algodão doce.
Após uma longa introdução do nosso personagem principal sozinho com seus pensamentos, EL VIAJE entra em outro ritmo: o de um diálogo. Fran engata um papo com Sonia, outra passageira presa na Patagônia por causa do voo cancelado. Essa conversa vai guiar a maior parte do quadrinho.
Fora Sonia ter uma personalidade mais interessante que a de Fran - ela é uma argentina indignada com o voo que não pode pegar e indignada em geral, com outras camadas que se revelam durante o papo -, o diálogo entre os dois é outra chance de Paco Roca desfilar recursos de narrativa. Há uma página exemplar em que os dois começam a analisar um casal mais velho, e os balões do diálogo de Fran e Sonia cercam os quadros do casal em análise.
O diálogo também rende metáforas e analogias, que viram desenhos e esquemas para Roca fugir da monotonia de páginas de conversa, conversa e conversa. Além dos filtros azul e rosa, surge o filtro verde, para construções literárias que os dois fazem.
Roca, em entrevista ao Blog de Comics:
Era um desafio narrativo: descobrir como contar uma história em que, em termos de ação dos protagonistas, não acontece absolutamente nada. Fran e Sonia ficam o tempo todo sentados e conversando. Isso é um desafio para os quadrinhos, talvez também seja para o cinema, onde estamos acostumados a ver gente fazendo coisas. Mas, se pensarmos na literatura, isso não tem nada de estranho. A literatura tem recursos de sobra para tornar esse tipo de narrativa atraente; a questão era saber se isso também poderia funcionar nos quadrinhos.
Estamos cada vez mais habituados a graphic novels em que os personagens não precisam estar fazendo coisas o tempo todo, como acontecia em Tintim, no Homem-Aranha ou em qualquer outro clássico. Hoje nos interessa mais conhecer personagens que sentem e pensam, e não apenas vê-los em movimento constante. O desafio é tornar isso atraente, tanto na estrutura narrativa quanto visualmente.
Então: as entrevistas. Um dos aspectos mais interessantes que se gerou em torno da carreira de Paco Roca, e que tem a ver com eu chamá-lo de professor, é o quanto o quadrinista se tornou uma figura importante na cultura espanhola. O país tem vários quadrinistas brilhantes, assim como o Brasil, e dá tanta bola para seus quadrinistas e seus quadrinhos quanto o Brasil: mínima. Ou dava, antes do sucesso de Roca.
A carreira do autor está em ascensão desde RUGAS, de 2007. Publicado originalmente na França, o quadrinho sobre Alzheimer virou longa de animação na Espanha. Mais recentemente, A CASA também virou filme no país. O TESOURO DO CISNE NEGRO, sua colaboração tintinesca com Guillermo Corral, virou seriado da Netflix. EL VIAJE já saiu com direitos vendidos para o cinema.
O ápice mais recente da sua carreira foi O ABISMO DO ESQUECIMENTO, de 2023. O álbum feito em parceria com o jornalista Rodrigo Terrasa, sobre os cadáveres ocultos da ditadura espanhola, vendeu 40 mil exemplares em menos de um mês. RUGAS e ACASOS DO DESTINO já superaram 100 mil em seus anos de mercado, segundo sua editora na Espanha, a Astiberri.
Já escrevi sobre O ABISMO DO ESQUECIMENTO:
É um ápice que, no momento em que Roca publica seu primeiro álbum após ABISMO, leva boa parte do jornalismo espanhol a procurá-lo para conversar. Numa pesquisa rápida, encontrei quinze entrevistas com Roca sobre EL VIAJE, entre jornais e revistas impressos ou online (El País, Clarín, ABC.es, El Diario, El Hype, El Salto, El Periódico, Cade Naser, Diario de Sevilla, Levante, Noticias de Gipzuoka) e programas de rádio e tevê (RTVE, Radiotelevisión del Principado de Asturias, Europa FM). Todas as conversas são deste mês de junho. Entre elas, apenas uma saiu em um site especializado em quadrinhos, no já citado Blog de Comics.
(Só uma em um site especializado. Anotem.)
Roca, preparado para a bateria de perguntas idênticas, tem respostas prontas para repetir quinze vezes nas quinze conversas. Por exemplo: sim, EL VIAJE é parcialmente autobiográfico - ele se separou da esposa há alguns anos, ele também tem duas filhas e ele também ficou um tempo preso na Patagônia por causa de um voo cancelado. Mas a história se aproveita de exemplos de amigos que passaram por processos parecidos, além de ter camadas de ficção.
(Se entendi a linha do tempo, ele ficou preso na Patagônia alguns dias depois da nossa entrevista no Uruguai:)
Na entrevista ao Noticias de Gipzuoka:
Não apenas me expus nas minhas histórias; também expus as pessoas que me cercam. Um leitor atento talvez pudesse acompanhar a minha vida por meio desses quadrinhos. Embora fique claro que, como digo, quem conta as coisas é um personagem. Em UN HOMBRE EN PIJAMA [série de quadrinhos curtos inédita no Brasil, semiautobiográfica], aquele sou eu até o ponto em que deixa de me interessar ser eu. Sou distraído, mas não sou como aquele personagem em muitos aspectos. Acontece a mesma coisa com Fran, em EL VIAJE, e com José, em A CASA. Conto o que quero contar; o que não quero, invento.
A propósito, Paco é apelido de “Francisco”. Assim como “Fran”.
Minha preferida entre as respostas prontas: “EL VIAJE não quer ser um livro de autoajuda.”
No celular de Fran, o nome da ex-esposa aparece como “AA Susana” - aquele recurso que usamos para marcar o contato como primeiro da lista ou para emergências. Ao longo do quadrinho, Fran debate consigo quanto a tirar o “AA” da frente do nome.
É um ato sutil, que ganha peso quando o personagem não consegue fazer na primeira tentativa. Ela é ou não é a pessoa mais importante nos seus contatos? O debate interno sobre o “AA” vira cena recorrente em EL VIAJE. Sutil, mas potente.
Em entrevista à ABC.es, quando perguntado sobre a memória como grande tema de seus quadrinhos:
Creio que às vezes confundimos memória com passado, mas a memória é sempre presente. É o relato que construímos a todo momento daquilo que já aconteceu, embora elaborado a partir do agora.
Sobre a opção pelo formato do quadrinho horizontal, que ele usou em A CASA, ABISMO DO ESQUECIMENTO, REGRESSO AO ÉDEN e agora, mais uma vez - ao Blog de Comics:
Acho que cai muito bem para histórias intimistas. Creio que gera uma leitura mais próxima, e me faz pensar em recursos diferentes para resolver a página. Como estamos mais acostumados ao formato vertical, quando você trabalha no horizontal acaba testando outras possibilidades. Se mudar a ordem dos quadros, a leitura continua funcionando ou não? Com os leitores acontece a mesma coisa: às vezes eles hesitam em relação à sequência dos quadros, porque não têm a mesma familiaridade. Você está apresentando um novo percurso para o olhar. Às vezes eles se atrapalham, mas tudo bem. Descobri que, no formato horizontal, dá para criar páginas que aceitam percursos de leitura diversos. Você pode começar por três quadros verticais à esquerda e depois ler quatro à direita, e acontece uma coisa; ou pode alternar a leitura entre eles. Essa é a graça dos quadrinhos.
Creio que as HQs são o único meio narrativo em que espaço e tempo acontecem ao mesmo tempo. Somos como o Dr. Manhattan observando a realidade. Na página, o olhar sempre trapaceia: a gente vai direto para o fim da página ou para algum quadro que chama a atenção. Isso implica uma mudança de espaço e de tempo. A leitura nos quadrinhos é algo mágico, e no formato horizontal esse jogo fica ainda mais divertido.
Já vi Roca recorrer a recursos diversos dos quadrinhos em O ABISMO DO ESQUECIMENTO, em ACASOS DO DESTINO e no meu preferido, REGRESSO AO ÉDEN. Neste último, ninguém me desconvence que as sequências de abertura e encerramento são puro Chris Ware.
E veja bem, não são plágios de Ware ou de outros autores. São Roca aproveitando, e aproveitando muito bem, a caixa de ferramentas que se construiu para a narrativa de HQ em anos recentes. E que ele traz para o quadrinho popular - provavelmente o quadrinho adulto mais popular do mundo.
Não sei se Paco Roca quer ser professor. O que ele quer, aparentemente, é contar as histórias que quer contar, e calhou de saber se expressar em quadrinhos. Graças a ele, o que as HQs têm de único e melhor chega a um público muito maior que o das HQs experimentais ou que se fecham nos já iniciados. É uma conquista para ele - e para os quadrinhos.
Paco Roca no Brasil:
RUGAS (trad. Marquito Maia), devir, 2017
A CASA (trad. Jana Bianchi), devir, 2021
REGRESSO AO ÉDEN (trad. Jana Bianchi), devir, 2022 - meu preferido
ACASOS DO DESTINO (trad. Jana Bianchi), devir, 2021
O TESOURO DO CISNE NEGRO (com Guillermo Corral, trad. Jana Bianchi), devir, 2024
O ABISMO DO ESQUECIMENTO (com Rodrigo Terrasa, trad. Jana Bianchi), devir, 2024
Eu apostaria que a Devir lança EL VIAJE no Brasil neste ano ou no próximo. Por enquanto, a edição disponível é a espanhola da Astiberri.
Outros Paco Roca que li e recomendo:
EL INVIERNO DEL DIBUJANTE, astiberri, 2010
MEMOIRS OF A MAN IN PAJAMAS (trad. Andrea Rosenberg), fantagraphics, 2023
Ganhei um prêmio. Ou melhor: vou ganhar.
EIGHTBALL COMPLETO foi escolhida a melhor tradução de 2025 pela comissão julgadora do Prêmio Sophie Castille Award para Quadrinhos em Tradução, em sua primeira edição brasileira. Eu traduzi o tijolão para a Darkside Books.
Como já comentei longamente aqui:
Fiquei muito feliz com o prêmio, e ainda mais feliz quando li o texto que a comissão julgadora preparou sobre a tradução. Está aqui. Não tem comentário de professora, nem banca de avaliação, nem resenha que supere o calibre do que foi esse memorial. Muito obrigado a João Paulo Lian Branco Martins, Heitor Pitombo e Maiara Alvim de Almeida
Também preciso dizer que o prêmio é igualmente do Sergio Chaves e equipe, responsáveis pelo letreiramento dessa tradução. Escrevi uma tese inteira (ASSIS, 2018) a respeito de por que o letreiramento de tradução de HQ é tradução, estou apenas seguindo minha teoria. E acho que a tese está comprovada com perfeição no que o Sergio e cia. fizeram em EIGHTBALL COMPLETO.
Tenho mais uma lista de agradecimentos para fazer, e espero fazer na cerimônia de premiação - no domingo, 28 de junho, a partir das 16h, na Casa de Cultura Municipal Butantã, em São Paulo!
Também quero comemorar com vocês que leem a virapágina. Todos os assinantes que colaboram com a newsletter estão concorrendo (mais uma vez) a um exemplar de EIGHTBALL COMPLETO. O sorteio vai acontecer até a próxima edição, dia 19/6.
Se você ainda não colabora com a virapágina, tem até o dia 18/6 para entrar nessa lista de concorrentes a esse tijolão premiado. É só apertar abaixo e escolher o plano anual.
Mais sobre o prêmio no Fora do Plástico e no Publishnews.
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As datas podem mudar a qualquer momento e eu não tenho nada a ver com isso.
recentes e relevantes
MEUS FANTASMAS, Tessa Hulls, quadrinhos na cia.
GONE, Jock, poptopia
VENDEMOS NOSSAS ALMAS, grady hendrix, intrínseca
O SEGREDO DE CHIMNEYS, Agatha Christie, harpercollins
O PRIMEIRO GATO NO ESPAÇO E A VINGANÇA DO BEBÊ PIRATA, Mac Barnett e Shawn Harris, todavia
TRÊS SEGUNDOS, Marc-Antoine Mathieu, comix zone
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LIMBO, Deb JJ Lee, nversos
LITTLE BIRD: A BATALHA POR ALENTO, Darcy van Poelgeest e Ian Bertram, comix zone
NARRATIVAS GRÁFICAS E RECURSOS VISUAIS: PRINCÍPIOS E PRÁTICAS DO MESTRE DOS QUADRINHOS, Will Eisner, wmf (tradução de Alexandre Boide, eu editei)
CONAN, O BÁRBARO 12, Jim Zub, Jonas Scharf, Diego Rodriguez, panini
A ESPADA SELVAGEM DE CONAN 5, Jason Aaron, Geof Isherwood, Jim Zub, Michael Kogge e Jim Parsons, panini
EXCALIBUR: ESPADA DESEMBAINHADA (EPIC COLLECTION), Chris Claremont, Alan Moore, Alan Davis, Arthur Adams, vários, panini
HELLBLAZER: EDIÇÃO DE LUXO VOL. 14, Brian Azzarello, Richard Corben, Marcelo Frusin, Steve Dillon, panini
CHOQUES FUTURISTAS POR ALAN MOORE, Moore, Jim Baikie e outros, mythos (traduzi SKIZZ)
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em agosto
LOBO OMNIBUS VOLUME 2, Alan Grant, Val Semeiks e vários, panini
CONAN, O BÁRBARO 13, Jim Zub e Fernando Dagnino, panini
em 2026 (anunciados pelas editoras)
GIBI S.A., Shawna Kidman, veneta
TOTEM, Laura Pérez, nversos
CRUMB: A CARTOONIST’S LIFE, Dan Nadel, todavia
RAÍZES DE GINSENG, Craig Thompson
LOCAL MAN VOL. 1, Tim Seeley e Tony Fleecs
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Meu nome é Érico Assis. Sou jornalista e tradutor. Escrevo profissionalmente sobre quadrinhos desde 2000, traduzo profissionalmente desde 2009. Sou um dos criadores do podcast Notas dos Tradutores, colaboro com o canal de YouTube 2Quadrinhos e com o programa Brasil em Quadrinhos do Ministério das Relações Exteriores. Dou cursos de tradução na LabPub. E escrevo esta newsletter.
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E que você vire ótimas páginas até a semana que vem.

























Eu gosto dos quadrinhos do Paco Roca. Eu acho que daria para falar em um subgênero de quadrinhos que tem esses temas absolutamente realistas: Tomine, Seth, Quintanilha, e mais uns que certeza que esqueci. Muitos têm essa veia autobiográfica.
Mas algo que quase todos possuem é uma certa ironia autodepreciativa... E não percebo nada disso no Paco Roca. Ele tem uma segurança... Literária? Não sei se sei explicar.
(No Quintanilha tbm não há essa autodepreciação, mas ele é um autor que fala dos outros, não trata diretamente de si)